Comercial AYO GG | Querencia, por Chungha

Bom dia apenas pra quem não está com um cisto no cu. Como vocês estão? Eu me senti meio febril essa noite, mas tomei um dipirona e já to pra jogo, não vai ser um caroço desgraçado que vai me derrubar. 

E, mais uma vez cumprindo prazos e promessas (um pouco atrasada, eu sei, disfarça), eu estou aqui com mais uma edição do Comercial, esse quadro em que a gente se esforça pra ser um pouco mais inteligente, sofisticada, mais Rubens Ewald Filho e menos Glória Pires. Aqui a gente faz desse circo que é o pop asiático um festival de Cannes. 

Hoje eu quero falar do megazord musical cujo parto foi difícil, delicado, mas agora ele está entre nós, meros mortais. Ele mesmo, o mais esperado, o mais aclamado, o mais ovacionado, Querencia! Sendo o primeiro full álbum da Chungha, a garota não quis ramelar não, ela foi e botou logo 21 faixas no cuzinho de cada gay como forma de agradecimento pelos anos de apoio nessa indústria vital. E se engana quem pensa que a Chungha não se preocupou com conceito e coesão. Aqui não tem ponto sem nó.

Quero lembrar que o Querencia se divide em quatro atos, cada um representando um lado da cantora: Noble, Savage, Unknown e Pleasures, que também possuem suas próprias músicas (que não serão levadas em consideração na média final, assim como o epílogo) e servem tanto como um cartão-visita ao que será tocado dali em diante, quanto um intervalo para a gente respirar e absorver tudo que foi ouvido. A proposta aqui é destrinchar a Chungha em diferentes personalidades, mas sempre amando profundamente cada uma delas. Isso é Querencia: o ato de querer, principalmente de se querer bem.

Vem comigo nessa longa (e bote longa nisso) review, faixa por faixa, do Querencia, da Chungha!

1. Side A (Noble)

Abrindo o álbum de maneira extremamente misteriosa, eu enxergo o lado Noble como a parte experimental da Chungha. Acho arriscadíssimo dar início a uma tracklist com essas músicas ousadas, mas a existência do Querencia por si só é um acontecimento, e Noble acaba sendo o meu interlúdio favorito de todos. Eu gosto dessa atmosfera etérea, quase sagrada que essa música tem, acaba me lembrando alguns lançamentos do The XX. Aqui, a Chungha dá um gostinho de que realmente faixas mais nobres e, até mesmo, de difícil apreciação estão por vir.

2. Bicycle

65/100

A gente sabe que, antes do Querencia, a Chungha lançou várias coisas pra gente tentar entender em qual trilha o álbum seguiria. E, com tanta coisa boa, muita gente esperou muito de Bicycle (eu me incluo nisso), mas não saiu exatamente do jeito que a galera queria. A verdade é que Bicycle não tem o cacife necessário pra liderar um álbum de 21 músicas. No meio de tanto pré-lançamento bom, a música acaba pendendo mais pra um trap tryhard que é pouco memorável, ainda mais sendo apenas a segunda faixa de tantas outras que ainda vão vir. 

Mas, o que me deixou com a sensação de que a Chungha é esperta depois de uma semana ouvindo, é como o MV tenta gravar na sua cabeça de forma subliminar que estamos falando de uma bicicleta, e que todos estamos convidados a dar uma voltinha nela, e isso acontece desde a coreografia simulando uma bicicleta até o sino no meio da música. Fora os riffs de guitarra que ainda chamam muito a minha atenção. 

Como eu tinha dito na minha review separada da música, Bicycle é a faceta da Chungha que ainda não tínhamos vistos, essa personalidade mais debochada e boss ass bitch, e ela é lembrada por mim somente por isso. 

3. Masquerade

80/100

Provando ser a latina que não nasceu na América Latina, Chungha trouxe uma fusão de salsa e R&B em Masquerade, também conhecida como a melhor música do Side A. Aqui não tem a sua música latina 101 que qualquer grupo de kpop entregou de 2018 pra cá e sim uma construção inteligente de elementos culturais que crescem junto com a potência do vocal da Chungha. 

Com camadas de trompetes e uma ponte que insinua um pouco de bossa nova, Masquerade é carregada de sensualidade sobre um amor que pode te encontrar onde quer que você esteja através de lembranças, cheiros, pistas… É a música mais memorável dessa primeira leva do álbum, que empolga e desperta a chica caliente que existe dentro de cada um de nós.

4. Flying on Faith

50/100

Flying on Faith é a primeira tentativa de uma música inteiramente em inglês do álbum (coisa que eu nem tinha percebido quando ouvi da primeira vez). Aqui, a Chungha entrega uma canção sobre relacionamentos desgastados em um pop rock condensado por um ou dois riffs de guitarra constantes e que poderia ter sido cantado pelo Ed Sheeran. Não acho uma música ruim, só acho que a anterior fez muito pelo lado inteiro. Não é algo que eu vou me lembrar no fim do dia, entende?

5. Luce Sicut Stellae

55/100

Outra música mais bobinha sobre bilhar como uma estrela, mas o instrumental acaba ficando mais marcado comigo por ser uma espécie de reggae inofensivo. Luce Sicut Stellae não tem espaço pra crescer e também não poderia oferecer algo além do que já oferece, mas no fim das contas ela funciona como uma pausa pra se concentrar pelo que vem por aí. 

6. Side B (Savage)

Aqui é só a Chungha que fez a cabeça de milhares de gays ao redor do globo. Muito clubber, ballroom, baladeira, close, carão, vogue, tudo. Amo como isso aqui parece algo inacabado e descartado pela Lady Gaga, mas o objetivo de deixar todo mundo de cu aceso funciona. Savage faz uma viagem por tudo que fez os anos 90 ficarem conhecidos como a década das danceterias, preparando o terreno para os verdadeiros hits pelos quais a cantora ficou conhecida pelo público. 

7. Stay Tonight

95/100

Stay Tonight foi um pré-lançamento do começo do ano passado, que serviu muito disco pop e future house e abriu espaço pra uma mega high note da Chungha no pré-refrão, super bem recebida por mim. Aqui temos uma música recheada de sintetizadores e linhas de baixo que preenchem muito bem como graves e são os maiores pontos do instrumental, é impossível não se jogar na pista com ela.

Talvez pela estrutura diferenciada, Stay Tonight não tenha agradado de primeira. Eu fui uma dessas pessoas que estranharam a música e torceram o nariz pra ela por muito tempo, mas com o lançamento do Querencia, eu vejo como isso aqui é grande e tão bem produzido, sem contar o valor histórico em ter a volta de uma potencial k-diva num cenário comandado pela imagem inocente de cantoras como a IU. 

O Side B é aberto com um convite da Chungha pra você mergulhar de vez com ela nessa sonoridade pop em que ela é tão bem falada hoje; o feijão com arroz dela é isso aqui. Se você não aceitar, tudo bem, existem outros lados da Chungha pra desbravar. Mas aqui tem performance, tem entrega. Portanto, “fique essa noite” e descubra. 

8. Dream of You (with R3HAB)

100/100

Sem questionamentos: Dream of You é o ápice da Chungha no quesito qualidade musical. Como a segunda tentativa de uma música totalmente em inglês, aqui ela entregou tudo que existe na categoria “excelência pop”, mirando no seu recém-contrato com a gravadora 88 rising e arriscando um hit internacional. Deu super certo, pelo menos comigo.

Dream of You é um R&B influenciado pelo Michael Jackson, quase prestando uma homenagem a todo o legado que ele deixou na história da música, principalmente por lembrar faixas como Smooth Criminal e Blood on the Dancefloor. O baixo dessa música pulsa pelo seu corpo inteiro como uma descarga elétrica e, combinado com a letra super sensual, traz a tona toda a maturidade da Chungha em carregar uma música como Dream of You. 

Acho que isso aqui é o suprassumo das homenagens ao rei do pop, que tanto bebeu na fonte dele, coisa que fica muito clara quando a gente vê que Dream of You ganhou um MV inteirinho de performance. A coreografia é maravilhosa e conversa com a música, a Chungha serviu tudo junto dos dançarinos. E agora que você “ficou”, temos “whisky, gin e lingerie” enquanto você se diverte com o que a Chungha ainda tem a te oferecer. 

9. Bother Me

90/100

Ainda seguindo a linha de músicas de discoteca, temos Bother Me, que eu elegi como a melhor b-side do Querencia no meu post sobre Bicycle; minha opinião continua a mesma. Bother Me traz um pouco de eurobeat com influências de outros gêneros, como jazz-funk e soul. É uma faixa bem experimental, com um instrumental mais voltado a ser tocado como música ambiente ou em algum desfile de moda, mas que ainda tem o fator pop que te faria dançar em alguma festinha em Ibiza enquanto tenta se livrar de um relacionamento tóxico, tal qual a Chungha faz na letra.

10. Chill

60/100

Chill é a música que dá uma freada nos batecus do Side B, claramente algo que poderia ser cantado pela Katy Perry ou pela Taylor Swift, porque é uma ótima representante do pop genérico. Não é exatamente o tipo de música que eu gosto de ouvir, mas serve pra tapar o buraco entre os números de house e o próximo lado, deixando a transição de faixas mais coerente. 

11. Side C (Unknown)

O terceiro lado do Querencia, chamado de Unknown, mostra que a nossa menina Chungha é viajada e ligada nas tendências fora da Coreia do Sul. Por exemplo, nesse interlúdio, ela entrega um big beat inglês que poderia estar em qualquer álbum do Prodigy, e eu gosto muito do fato de isso aqui ser uma loucura em forma de som. Pra ser uma artista completa, a Chungha precisa conhecer coisas fora da sua zona de conforto e, em Unknown, ela está disposta a mostrar, com a ajuda de diversas parcerias, que, pra música, não existem barreiras geográficas.

12. Play (ft. Changmo)

80/100

Na época do seu lançamento, Play foi a aposta da Chungha para o verão coreano, e foi a música que eu menos gostei até Bicycle surgir. Hoje, ouvindo para a review, eu reconheço que Play é uma das músicas mais fortes da carreira dela, mostrando que um bom single de verão não se faz apenas com biquínis e piscininhas. 

Toda a força da mulher latina-coreana tá aqui, amores. Um moombahton refrescante que cresce na medida em que a Chungha também se esforça pra entregar ótimos vocais e tem seu grande momento no pós-refrão com a explosão da percussão e os sintetizadores. Play é tida como a “sequência lírica” de Stay Tonight, contrariando a ressaca moral que o single anterior traria em uma linha do tempo hipotética ao mostrar uma Chungha pronta para um segundo round. 

13. Demente (ft. Guaynaa)

85/100

Esse aqui é o grande boom do álbum pra grande parte da blogosfera. Pela primeira vez, um artista latino e uma cantora coreana fazem uma colaboração musical, mas não só isso. No Side C, a Chungha estava tão disposta a encarar outros mundos que ela cantou a maior parte de Demente em espanhol. Ou seja, é mamacita que fala, Karol. 

Eu gosto muito de Demente (que eu vim a descobrir que teria significado de “louco” de amor) e gosto como ela também traz influências latinas, mas que, no resultado final, é muito diferente de Play. Aqui a gente tem um reggaeton raiz, compassado, sensual, típico da região caribenha, que foi onde o gênero nasceu. A participação do Guaynaa e a sinergia entre os dois é maravilhosa, uma daquelas colaborações que a gente nunca imaginaria dar certo. E ainda bem que deu.

14. Lemon (ft. Colde)

60/100

Ainda na proposta de trazer diferentes sons de diferentes lugares, temos Lemon, uma espécie de lounge infundido com bossa nova. Não é tão agitada quanto as músicas anteriores, mas ainda diverte o ouvinte que procura algo mais conceitual e com bastante intelecto musical, que acaba me lembrando os tempos em que a Luciana Mello entregava MPB de qualidade pras rádios. Estranhamente, os coreanos gostam dessas fusões que remetem ao jazz e à bossa nova, então é uma faixa que pode fazer a cabeça da galera.

15. Byulharang (160504 + 170607)

40/100

E aqui a gente tem o grande momento de Taeyeon da Chungha. Em um voz e violão que expressa infinitos agradecimentos aos fãs desde sua época no IOI, Byulharang é a música mais fora de lugar nesse álbum e poderia muito bem estar na leva de músicas a seguir. Como proposta do Side C, essa música não se encaixa em nenhum requisito, sendo totalmente dispensável e lembrada apenas para encerramentos de show. É um dos grandes erros do Querencia na sua estrutura de músicas, mas a mensagem ainda é bem-vinda.

16. Side D (Pleasures)

Enfim chegamos no último lado do Querencia, o Pleasures. Nessa última parte, a Chungha mostra como ela também tem capacidade de carregar baladas emotivas com a mesma força que grandes cantoras que existem aos montes na Coreia do Sul e todo mundo adora pagar um pau. É o interlúdio que eu menos gosto e o que menos tem a ver dentro da narrativa toda que a Chungha se propôs a montar pra gente. Você não escuta isso aqui pensando que vai vir uma sequência de sertanejos, então Pleasures me desconecta bastante da imersão que o Querencia me induziu. 

17. X

100/100

Em contrapartida, o Side D é aberto com uma das melhores músicas que a Chungha já entregou. Semanas se passaram e eu continuo rasgando seda pra X, que dentro da sua temática mais introspectiva, conseguiu me capturar por completo nesse pop rock melódico extremamente emocionante. Ninguém nunca serviu uma música de superação e amor próprio como essa dentro do kpop, não com um conceito de ser grande demais pra uma cidade que não tinha mais nada a oferecer.

É justamente essa metáfora que faz de X a minha música. Muitas vezes a gente precisa entender o momento em que quebramos nosso espaço e crescemos pra fora dele. Pode ser dolorido, mas quando existe algo maior que pode nos comportar, precisamos correr atrás. Se eu não sou o suficiente aqui, então eu sou mais que o suficiente em outro lugar. A Chungha me ensina isso a cada vez que escuto essa música. 

18. All Night Long

50/100

Como eu também observei sendo de consenso, All Night Long é a investida mais alternativa dentro do Querencia. Composta pela Baek Yerin e que poderia estar em qualquer álbum dela, não é uma música que eu gosto, mas tem elementos muito interessantes de R&B e soft trap, o que deixa a música em uma atmosfera mais imersiva. 

19. Everybody Has

35/100

Everybody Has é o baladão clássico que serve pra cativar o coreano médio em qualquer busca do gênero nas plataformas de streaming. Não tem nada nela que me chame a atenção, tem um instrumental fraco e não dá muito espaço para a Chungha mostrar mais cores da sua voz. Entre tantas músicas lentas surpreendentemente boas que existem no Querencia, Everybody Has é bem esquecível e sua posição na tracklist é bem desfavorecida pela exaustão em ouvir outras 18 faixas em sequência.

20. Comes N Goes

55/100

Tentando recolher os frangalhos que a chatice da música anterior deixou, Comes N Goes dá um certo up no álbum com um pop mais alegre sem deixar a introspecção de lado. Com alguns elementos bem sutis de dream pop e várias camadas de voz, a música é bem inofensiva, dando o descanso dos justos que o ouvinte merece depois de passear por tantos estilos diferentes de uma só vez. 

21. Querencia (Epilogue)

Tá, preciso falar uma coisa: eu odeio faixas-epílogo. Normalmente é uma bizarrice que o engenheiro de som usou pra brincar na hora do almoço e alguém achou bom o suficiente pra incluir no álbum. Aqui não é diferente. Aliás, me deu um gatilho enorme com os 30 segundos de silêncio absoluto pra depois dar início a um teste de som horrível que me lembrou aqueles absurdos que os Beatles colocavam nos álbuns, sabe? Enfim, péssimo. Pelo menos os primeiros segundos de R&B lo-fi salvam. 

O Querencia é um acontecimento único no kpop. Em meio a tantos lançamentos de EPs e singles, 21 faixas acaba chamando a atenção e faz disso tudo um grande evento. A Chungha soube escolher bem os singles pra usar de pré-lançamento, mas tem alguns pontos que é necessário o destaque. Primeiro que o álbum é muito longo e a forma como ele foi pensado deixam os “lados” desbalanceados entre si. Por exemplo, eu acho que poderia intercalar as baladas com as músicas mais agitadas, e então o interesse pelo Querencia inteiro não cairia.

Outra coisa, existem músicas muito parecidas, mesmo em “lados” diferentes. Talvez escolher quatro músicas pra cada um deles acarretou em sonoridades iguais, então pode ser que tenha faltado uma revisão melhor na versão final do álbum antes do lançamento. Já outras músicas ficaram deslocadas, como Byulharang no Side C, desculpa, é um despautério e contradição com o que foi dito sobre esse lado. Daria pra tirar Everybody Has de repente, deixar só como um lançamento de inverno mesmo, e botar Byulharang lá. Aí, no lugar de Byulharang, viria Masquerade. Sabe assim?

Mas de resto, Chungha pariu muito bem o bebê Querencia. Com algumas complicações sim, mas que foram resolvidas e a criança veio com muita saúde e hits pra alimentar a gente por um bom tempo. Acho difícil a Chungha apostar em algo assim de novo. Como ela disse, o Querencia é um ponto de força pra ela, um lugar pra onde ela sempre quer voltar. Então algo assim é como um cometa: só vamos ver de anos em anos. Mas foi bom estar viva na mesma época que um álbum desse tamanho deu vida à comunidade. 

Média final: 69/100

Qual sua música preferida desse álbum? Qual outro álbum vocês querem que eu revisite? Eu tenho alguns já anotados, mas também preciso seguir a voz do meu povo. Deixa aí nos comentários!

Autor: Rafa

26 anos, de São Paulo e ativa nessa vida de pop asiático há mais tempo do que eu gostaria.

5 pensamentos

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