Comercial AYO GG | timeabout, por YUKIKA

Pouco tempo depois de soltar a review sobre o último álbum da IU, o Comercial está de volta com outro lançamento igualmente aguardado (pelo menos pelas blogueirinhas de plantão da minha bolha social). E se eu não tinha um blog pra comentar sobre a estreia audaciosa dessa menina, prometo que, agora, eu vou destrinchar cada milímetro possível e impossível disso aqui. 

YUKIKA, ou também conhecida como Yukika Teramoto, dispensa apresentações pros leitores desse blog (e de outros blogs emergentes também). Fomos todos contagiados pela sede da nossa cantora nipônica mais coreana que conhecemos quando ela cantou a letra pela primeira vez sobre sua trajetória musical ao se apropriar da capital da Coreia do Sul em Soul Lady no ano passado. Até então desconhecida, a YUKIKA percebeu que, pra contar a história que queria, precisaria lançar um full álbum, independente dos percalços que viriam pela frente, e isso criou uma espécie de empatia para com tudo que ela lançaria dali em diante. 

Agora, com essa troca de empresa conturbada e um futuro quase incerto pra legião de 20 fãs que ela conquistou por aqui, YUKIKA voltou pra continuar o roteiro que construiu com um projeto tão ousado quanto o anterior. timeabout, (escrito com a vírgula mesmo, indicando uma continuação) é o primeiro de uma trilogia sobre o tempo e tudo que envolve essa dimensão até hoje tão desconhecida pra nós. A concepção desse EP, e do próprio tempo, eleva a musicalidade da YUKIKA a outro patamar, o que é bem difícil quando lidamos com algo tão abstrato. 

Quer entender melhor a mensagem que ela quer passar? Então acompanha comigo a review faixa-a-faixa do timeabout, da YUKIKA!

1. Leap forward

90/100 

É muito doido como uma introdução de menos de dois minutos consegue traduzir muito bem o que se espera desse álbum. Em Leap forward, a YUKIKA consegue nos transportar a uma máquina do tempo, como se fizesse uma rápida palestra de tudo que vai acontecer dali pra frente. São diferentes texturas de saxofones e guitarras que, ao contrário do que se podia imaginar, não lutam por espaço. Elas existem em harmonia, como se o saxofone desse abertura para os riffs e vice-versa. 

Leap forward brilha ao abrir o EP com tanta maestria, mesmo sendo somente uma introdução instrumental. Enquanto ela toca, me sinto rasgando a malha do tempo na velocidade da luz com a explosão de sonoridades, cada átomo do meu corpo reagindo de formas diferentes, pulando, borbulhando… Até que a música me ejeta da máquina do tempo e deixa vagando no nada, flutuando no espaço. Nunca uma introdução foi tão perfeita, caras. A produção dessa faixa é espetacular no que diz respeito a “traduzir um conceito sem dizer uma única palavra”. 

2. Insomnia 

85/100

Se em Soul Lady a YUKIKA falou de todos os fatores que a levaram até aquele presente momento, Insomnia faz uma grande conexão entre o passado e os dias de hoje da cantora. Como eu disse no post solo, muitas vezes gostaríamos de nos encontrar com o nosso “eu” passado e ter uma grande conversa sobre tudo. Insomnia é uma música bem terapêutica ao levar essa proposta pro literal e rompendo todas as leis temporais possíveis, apenas pra dizer pra YUKIKA mais jovem que vai ficar tudo bem.

O fato da faixa se chamar Insomnia faz muito sentido quando essas lembranças que inundam a nossa cabeça tomam forma justamente na madrugada. Pensar em tudo que não foi dito ou feito e amargar todos os arrependimentos faz parte do nosso cotidiano sendo um ser humano. Aqui, a YUKIKA promove o auto-perdão; não se culpe tanto por ter feito escolhas erradas, pois, naquele momento, elas foram justas. Não se cobre tanto, a vida tem uma ótima surpresa pra você. Acho que esse é o maior ato de amor próprio que podemos ter com nós mesmos. 

Musicalmente, Insomnia pode parecer um pouco mais lenta do que Soul Lady, mas demonstra ser muito mais rica e variada do que o city pop puro que ela entregou no seu debut. Pra quem me conhece, eu adoro ouvir o baixo pulsando numa música e a YUKIKA me deu exatamente isso aqui. A elegância do baixo, combinado com o instrumental bem mais funk music e a voz doce da YUKIKA, transformam Insomnia em uma música extremamente confortável de se ouvir nos dias em que a gente se detesta, o que eu julgo mais que necessário pra tempos como esses. 

3. Lovemonth

95/100

Já em Lovemonth, o pré-lançamento que teve a missão de colocar muitas expectativas pro EP, a YUKIKA tece outra visão do tempo ao relacioná-lo com um amor tão bonito que não tem fim. Ou, pelo menos, não deveria ter. Parece uma ideia clichê, mas a forma como a letra discorre sobre o conceito de amor é tão sincera que acaba sendo contagiante. Lovemonth, ou “um mês de amor ininterrupto que congelou o tempo”, é escrita também em hangul e kanji. 

Em coreano, os caracteres 애 = pequeno e 월 = mês, se juntam aos kanjis 愛 = amor e 月 = lua, criando assim essa atmosfera de uma paixão avassaladora que virou a cabeça da YUKIKA da noite pro dia, utilizando o tempo (mês) e um elemento comumente associado ao romantismo (a lua) pra condensar em um sentimento. E é bem interessante como a YUKIKA brinca com o tempo aqui. Enquanto tudo acontece muito rápido, nos momentos em que ela troca juras de amor com a outra pessoa é como se o tempo parasse.

Lovemonth é a melhor música do timeabout, daquelas que nos confundem verdadeiramente por estarmos ouvindo algo saído de outra época nos tempos atuais. É um city pop puro, dançante, enérgico, super otimista que faz referência aos tempos de crescimento econômico no Japão. E não é desafiador ser uma cantora japonesa em terras coreanas cantando uma música tão… Característica? Eu considero Lovemonth o maior ponto de resistência de tudo que compõe a YUKIKA. Dentro dessa mistura de gêneros, nacionalidades e conflitos históricos, ela encontrou o amor. E, de repente, o mundo congela.

4. TIME TRAVEL

80/100

Na faixa anterior, a YUKIKA cantou sobre amores profundos que são capazes de parar o tempo; já em TIME TRAVEL, é como se ela partisse pelas linhas temporais em busca de recuperar o que acabou. Exibindo um lado mais melancólico e nostálgico do city pop, assim como ela fez muito bem no Soul Lady, TIME TRAVEL é um dos highlights líricos do timeabout. À primeira vista, pode parecer um pouco genérico, mas a letra desenha muito bem diversos fragmentos de tempo e cronologias hipotéticas na nossa cabeça. Talvez pelo fator de “saudade” que a música tenha, viajar no tempo se torna cada vez mais palpável à medida que a música cresce.

Enquanto a bateria eletrônica soa e dita o ritmo, eu tenho a impressão de estar sendo teletransportada pra um encerramento de anime dos anos 80/90. O instrumental de TIME TRAVEL é muito rico e texturizado, acho uma delícia ouvir mais uma vez e descobrir novos detalhes que, antes, estavam escondidos, e isso diz muito sobre a mensagem que a música quer passar. Eu estou “rebobinando” a faixa assim como a YUKIKA volta no tempo; dessa forma, nós duas exploramos juntas novas possibilidades. Quando um artista consegue exprimir um significado ao seu limite, temos uma música, no mínimo, memorável. 

5. Secret

90/100

Como o Rodrigo disse muito bem na review dele, Secret parte pra uma sonoridade diferente do que já estamos habituados a ouvir quando se trata da YUKIKA. Muitos dizem que é a nova pit-a-pet, que cumpriu a cota do Soul Lady em trazer algo mais fora da caixa, mas acho que as duas músicas seguem direções opostas. Secret faz parte de um grande conjunto inovador da YUKIKA dentro desse EP, então a existência de uma música ousada nesse nível faz com que as transições de som sejam muito mais suaves. 

Sendo assim, Secret se encaixa mais nos moldes do kpop atual. Produzida pelo Dr.JO, os instrumentais mais explosivos e divertidos lembram um videogame antigo, daquelas trilhas sonoras 8 bits recheadas de efeitos sonoros. Cada amostra de som é uma experiência única nos nossos ouvidos, desde o barulho de água gotejante ao sintetizador quase infantil, passando pela guitarra tímida da ponte e até mesmo o registro vocal diferenciado da YUKIKA tornam Secret uma preciosidade que poderia dar muito errado nas mãos de outra pessoa. 

Já a letra é sobre a espera, de várias coisas. YUKIKA pega seu carro e vai em busca do seu amor, que é secreto, e ela precisa esperar a oportunidade certa de encontrá-lo. Ainda falando de sonoridade, sabe essa água que goteja sem parar na música? Não é brilhante como ela representa a passagem de tempo enquanto a YUKIKA espera, como se ela estivesse no calar da noite com as gotas de uma chuva que já passou pingando pelas poças da rua? Em muitas músicas, o tempo já foi representado com esse artifício, e ver a YUKIKA usando isso de forma subliminar em Secret é maravilhoso. 

6. PUNG!

75/100

PUNG! é o encerramento que se espera para o timeabout: calmo, sereno, contido. E, mesmo que a música siga por essa linha, não quer dizer que ela seja ruim ou que desça tanto o nível do álbum; na verdade, aqui existe uma grande influência do soul, o que faz com que seja o contraponto perfeito do “neo-retrô” barulhento da faixa anterior, assim como também se trata de um city pop genuíno que mantém a balança equilibrada com o alto teor de kpop de Secret.

Como fim de álbum, PUNG! me passa uma sensação estranha de dormir com o som da televisão, porque ela me lembra muito propagandas antigas daqueles canais de vendas. E é até incômodo escrever isso sozinha no meu quarto de madrugada, chega a me dar uma nostalgia tão forte que eu sinto um arrepio na espinha. Dormir na sala e acordar no quarto é um dos fenômenos mais inexplicáveis da nossa infância; é a total subversão do tempo, “como eu vim parar aqui se 10 minutos atrás eu tava na sala vendo TV?”. 

É com essa linearidade do marasmo da madrugada que a YUKIKA fecha o timeabout, observando a noite avançar na varanda de casa enquanto o som da televisão preenche o ambiente, e as memórias de um grande amor atravessam seu coração como estrelas cadentes (nome coreano da música). Apesar de ter a nota mais baixa do álbum, PUNG! ainda se mostra como a zona de conforto da YUKIKA: um city pop que não envelhece, não importa quanto tempo passe. 

Ano passado, com Soul Lady, a YUKIKA recebeu elogios de todos os lados como uma aposta diferenciada do que o kpop estava entregando. Confesso que eu não acompanhei o debut dela com tanto fervor e perdi o timing pra ouvir o álbum; sendo assim, não me considero tão apegada ao Soul Lady; mesmo reconhecendo que é um grande lançamento que serviu para que a YUKIKA contasse sua história desde o começo, não é um álbum que eu consigo consumir toda hora.

Com o timeabout, a YUKIKA juntou tudo que havia acontecido desde sua estreia e deu um upgrade na sua sonoridade, se arriscando em novos gêneros pra construir uma identidade musical ainda mais única, algo que nós possamos ouvir e dizer “isso é da YUKIKA”. timeabout é um álbum coeso, cheio de conceito e idealizado nos mínimos detalhes numa época considerada turbulenta, com a troca de empresa e tudo mais, o que nos faz refletir sobre as produções sul-coreanas num geral. O que garante independência artística por lá? Quais são as chances de um álbum desse nível existir depois de mudar de empresa? 

Todo mundo ficou sem resposta por alguns meses até a YUKIKA surgir com a já comentada Lovemonth e planejamento pra uma trilogia de álbuns. E, se com o Soul Lady, ela se autodenominou como nascida e criada na Coreia do Sul com uma tracklist repleta de referências nipônicas, com o timeabout (e os lançamentos seguintes), a YUKIKA tem muito a nos contar sobre como o tempo age para cada um de nós. Demorou até que ela pudesse ser a “dama de Seul” e, agora que ela deixou sua marca, veremos se ela resistirá ao tempo. É como diz no finalzinho do MV de Insomnia: Quando você abrir seus olhos, será seu momento.

Média final: 86/100

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Autor: Rafa

26 anos, de São Paulo e ativa nessa vida de pop asiático há mais tempo do que eu gostaria.

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