Kpop, Random

Hoje é meu aniversário: nada mais justo que falar sobre como a Lee Gai “enganou” a indústria do kpop por um ano

Como vocês podem ler pelo título, hoje eu completo mais um aninho de vida, o meu segundo tocando o AYO GG. E, diferente do ano passado onde eu fiquei sem pauta, têm dois comebacks programados na agenda, sendo que um deles é bem importante e renderia uma caralhada de views, mas resolvi deixar pro dia seguinte e fazer do meu aniversário uma tradição de posts especiais aqui no blog, cujo quadro agora se chama Hoje é meu aniversário! Não podia ser mais literal.

Bom, se o primeiro post dessa série anual serviu pra comentar sobre o debut da Somi, do qual eu gosto bastante e sempre quis ter a oportunidade de escrever, dessa vez eu viajei ainda mais no tempo pra trazer um dos casos mais tragicômicos que a história da música coreana já viu. Certamente você que acompanha kpop um pouco mais a fundo deve conhecer essa figura sobre quem eu vou falar, mas veio a calhar de eu estar fazendo vários nada e pensar “por que não reservar um dia especial pra comentar sobre a icônica Lee Gai?”. Foi assim que esse post, junto com a concepção de transformar isso num quadro, nasceu.

Sim, é nessa qualidade aí que vocês vão ter que ver

Você deve estar se perguntando o motivo de fazer da história da Lee Gai uma pauta especial de aniversário; é que eu acabei descobrindo que a protagonista do nosso post também nasceu num 19 de julho. Somos companheiras de data e queria prestar uma homenagem pra que ela lesse de onde quer que esteja (levando em consideração que ela: esteja viva, encontre o AYO GG num site de buscas coreano e use um tradutor). Sem contar que, mesmo se não houvesse essa coincidência, eu queria reservar um tempinho das minhas férias pra produzir material sobre a lenda com o meu ponto de vista.

Pois bem, pra falar sobre a Lee Gai, a gente precisa falar de um grupo chamado Baby VOX. Caso você não conheça de nome, tenho alguns fatos pra, talvez, refrescar sua memória, já que esse grupo fez parte da DR Music, que na época era DR Entertainment, criada em 1997 justamente pra agenciar a carreira do então quinteto. E, como já sabemos, a DR Music é a responsável por grande parte do que ainda mantém o kpop um chiqueiro, principalmente os já conhecidos rebrands que eles fazem dos grupos, dificilmente deixando alguém morrer de vez. Isso rolou com o Rania, que virou BP Rania e agora é conhecido como Blackswan, e também aconteceu com o Baby VOX: um ano após o disband, tentaram reviver as coitadas como Baby VOX ReV (que significa Renaissance Voice). 

Esse é o rebrand do Baby VOX se apresentando na Tailândia em 2007… E a mona ali da direita pedindo ajuda

Mas falando do Baby VOX, elas debutaram em 1997 como uma tentativa de contrapor o que era comum na época para os poucos girlgroups que existiam. Enquanto a SM e a DSP viam nos seus atos, SES e FinKL respectivamente, um enorme sucesso por conta da imagem mais pura e fofa, a DR Music, inspirada pelo estouro das Spice Girls no ocidente, apostou num conceito mais edgy e com bastante presença. Nisso, a gente pode dizer que tanto a empresa quanto o Baby VOX foram pioneiros e inauguraram uma outra faceta para meninas, dizendo que elas não necessariamente precisavam ser inocentes o tempo todo. Pena que, de primeira, a tentativa não deu tão certo e o primeiro álbum do grupo não vendeu o que se esperava.

Elas debutaram com essa música que eu acho muito… Shinhwa, pra falar a verdade (e aparentemente no mesmo parque que o Crayon Pop gravou Bar Bar Bar)

Nesse meio tempo, o Baby VOX enfrentava uma certa instabilidade de integrantes. Algumas pularam fora do projeto logo após a estreia, alegando conflitos internos que nunca foram esclarecidos, e foi nessa troca que, em 1998, a Lee Gai passou a fazer parte do grupo, que se manteve como um quinteto para o lançamento do segundo álbum da carreira delas. Dessa vez, visando abranger um público maior, Ya Ya Ya fez o papel de single, o que representou uma mudança brusca no estilo que a DR Music tinha proposto no ano anterior, algo que aproximava mais o Baby VOX das suas rivais na indústria; funcionou, catapultando o grupo para os holofotes com a sua nova formação e, posteriormente, como um dos atos mais importantes da primeira geração do kpop. Mas não foi só isso que chamou a atenção da galera. 

Quando uma empresa gerencia um grupo, ainda mais no comecinho com as integrantes na fase da adolescência, é comum que se exalte a beleza de cada uma. Isso, dentro de um conjunto de outras coisas, é chamado de fanservice, afinal quem não quer ver sua menininha favorita fazendo caretas fofas e sendo bonita apenas por existir? Tirando o advento da cirurgia plástica, não era muito diferente do final dos anos 90; aliás, desde aquela época existia um certo template de garota que fazia muito sucesso, aquela de franja lateral escorrida no rosto e um pompom enfeitando um rabo de cavalo lá no topo da cabeça. O rosto estampava uma certa inocência, algo meio “sei que estou entrando na puberdade, mas vou fingir que não”. 

A Lee Gai tinha todas essas características, a não ser por um detalhe que era impossível de passar batido: em qualquer ocasião, seja programa de TV, MV, shows, a DR Music fazia questão de meter um óculos na cara dela. Às vezes eles tinham lentes mais translúcidas, mas na maioria eram realmente óculos escuros e isso destoava de toda a impressão que o Baby VOX queria trazer, tanto na troca de conceito quanto na de grupo de adolescentes, que era o principal. Inclusive essa primeira era da Lee Gai rendeu uma porção de fotos engraçadas. Era como se ela fosse um elefante branco no meio da sala e absolutamente todo mundo exceto o próprio Baby VOX e os envolvidos profissionalmente com o grupo fingiam não ver.

Eu acho essa foto absolutamente tudo

Com os fãs reclamando, a DR Music meio que disse “ok, a gente vai tirar o óculos da Lee Gai”, mas foi o que acabou piorando as coisas, já que agora diziam que ela parecia uma tiazona comparada com as demais integrantes. E não tem nem como negar; as fotos pós-óculos não têm tanta graça, mas é perceptível que as feições dela eram bem mais maduras que as das outras meninas. Ela tinha linhas de expressão quando sorria, principalmente o que a gente chama de bigode chinês, e com os efeitos fotográficos da época (que consistiam de bastante flash pra deixar todo mundo bem branco) isso ficava ainda mais em evidência. No ao vivo não era muito diferente: os próprios fãs começaram a chamar a Lee Gai de tia, e a ladeira foi se formando quando uma pessoa apontou que a Lee Gai era muito parecida com uma integrante de um grupo do final dos anos 80.

Rápido contexto: apesar do Seo Taiji and Boys ter fundado as origens do kpop atual em 1992 e, em seguida, o HOT consolidando a formação de uma futura fábrica de idols coreana, existiam antes outros atos que eram definidos apenas como grupos de dança, mas que contribuíram bastante ao incorporarem gêneros como o funk, o disco e o soul nas músicas. O Setorae, que estreou em 1987, pode ser considerado como o primeiro girlgroup da Coreia do Sul por conta dessas características, e foi justamente com uma integrante dele que a Lee Gai foi comparada. A partir daí, rolou uma especulação cada vez maior em cima dessa teoria, como o fato dela ser muito lenta e errar todos os passos das coreografias, ou uma entrevista que o Baby VOX fez com um jogador de futebol popular da época onde ela parecia estar flertando com ele (pois é). Até que um programa de TV da MBC montou um especial com todos os passos da investigação sobre a história da Lee Gai. Uma coisa meio Sônia Abrão, sensacionalista e mau-caráter. 

Essa imagem da identidade da Lee Gai foi difundida pela MBC e é uma das principais que aparecem quando pesquisamos sobre o caso

Lee Gai, na verdade, se chamava Lee Heejung, nascida em 19 de julho de 1968, o que faz com que ela tenha 30 anos na época em que debutou no Baby VOX. Além disso, ela já tinha outras passagens na música: a primeira no já mencionado Setorae, trio de dance pop cujo papel na história da indústria do kpop é extremamente importante, apesar de ser pouco mencionado. O Setorae também é dito como uma versão coreana do grupo japonês Shoujotai, já que ambos surgiram mais ou menos na mesma época, e elas interpretavam as versões em coreano das músicas. E o mais impressionante: elas chegaram a se apresentar nas Olimpíadas de Seul em 1988. 

A música é bem boa btw

Com uma das integrantes indo morar nos EUA e o fim do Setorae, Lee Heejung se juntou a outra menina que sobrou, mudaram seus nomes artísticos (agora ela se chamava Lee Jisoo) e formaram a dupla Tam-Tam. A imagem das duas era muito diferente do Setorae, algo bem mais maduro, mas a colega dela acabou ficando famosa por conta de um filme em que ela atuou e abandonou o banco, e o Tam-Tam só sobreviveu a um álbum. Sua terceira tentativa, então, foi como solista, ainda sob o nome Lee Jisoo, e é aí que as coisas ficam um pouco mais interessantes.

Os álbuns solo não alcançaram o sucesso desejado, mas a forma como essa tentativa foi fabricada pra despontar no assunto desse post é surpreendente. Em 1993, Lee Heejung já estava lá na casa dos seus 25 anos, uma idade considerada avançada para adentrar a indústria musical, ainda mais naquela época. Foi a primeira vez que ela escondeu sua idade real, dizendo ter 20 anos. Apesar de não ser uma diferença tão grande como foi no Baby VOX, mentir a idade foi uma ideia do produtor musical. E quem era esse produtor? O futuro dono da DR Music, Yoon Deungryeong, já que o próprio agenciava a carreira solo dela em uma outra empresa nomeada a partir do seu nome, a Deungryeong Planning. 

Ou seja, é dito por aí que, devido a todas as evidências apresentadas na investigação sobre a vida da Heejung, em 1999, a DR Music montou uma coletiva de imprensa para fazer com que ela revelasse sua verdadeira idade e a motivação para ter escondido isso. Heejung contou que precisava debutar mais uma vez pra pagar o tratamento do seu pai, cuja doença não foi revelada, mas que com a idade que estava, seria praticamente impossível. Porém em alguns vídeos do Baby VOX existem comentários dizendo que ela nunca quis mentir a idade; pelo contrário, todos os envolvidos sabiam que ela tinha 30 anos. Heejung foi forçada pelo dono da empresa a fazer o que fez (o mesmo que agenciou sua carreira solo, não esqueçam), mas quando a bomba explodiu, acabaram deixando tudo na mão da coitada. 

A história da Lee Gai é engraçada superficialmente. Comparam muito com o filme A Órfã e o caso que inspirou o roteiro, mas depois eu entendi que o preconceito com mulheres velhas realmente existe. Pra fins de comparação, na mesma época o god debutou pela SidusHQ e o líder Park Junhyung era apenas um ano mais novo que a Lee Gai, mas tinha a mesma diferença de idade em relação aos outros membros do grupo. Não houve investigação em cima dele porque acredito que ele não tenha precisado mentir a idade e nem ouviu os fãs chamando ele de tiozão ou algo do tipo. Mais recentemente, tivemos a Kahi debutando no After School aos 29 e ela foi uma das queridonas do grupo até mesmo depois da sua graduação em 2012. 

Sério nem se ele quisesse se passar com 20 anos ele conseguiria, olha o da esquerda lá no fundo entrando na puberdade no momento da foto

Assim que ela foi expulsa do Baby VOX e praticamente banida da indústria coreana, colocaram a Eunhye no seu lugar e o grupo permaneceu com a mesma formação até o disband em 2006. Não existem notícias atuais sobre a Lee Gai. A última informação é de 2017, quando ela trabalhava em um bar na cidade de Busan, e não estava bem de saúde, então nem sei se hoje em dia ela tá viva pra saber que eu contei a história dela no blog, ou que a gente compartilha o aniversário. É muito difícil obter dados sobre a Lee Gai na internet que não estejam com traduções duvidosas, ou fotos com resolução porca (eu fiz milagre com a thumb desse post). Sobre o Setorae então nem se fala, eu não faço a menor ideia se elas se apresentaram na abertura ou no encerramento dos Jogos Olímpicos porque não tem registro disso em nenhum lugar a não ser em texto, o que é curioso já que o grupo faz parte de um momento extremamente importante pro kpop. 

O tempo e a vida foram injustos com a Lee Gai, Lee Jisoo, Lee Heejung, enfim, uma mulher de muitos nomes e experiências que não enganou ninguém. Que a DR Music apodreça no beco mais fudido de Seul e que ela esteja bem, mesmo que provavelmente em outro plano. Feliz aniversário, kween!

Fontes: aqui, aqui, um pouco aqui e as páginas em coreano do Baby VOX, do Setorae e da Lee Gai no Wikipedia.

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11 comentários em “Hoje é meu aniversário: nada mais justo que falar sobre como a Lee Gai “enganou” a indústria do kpop por um ano”

  1. MDS PARABÉNS RAFA, FELIZ ANIVERSÁRIO!!!!!!!!!!!!!!!!!! Eu fique em choque sempre que me aparece essas história de grupos antigos de kpop porque é umas coisa bizarra. Nesse caso ai, comecei dando gargalhada com esse circo todo, mas fiquei meio mal com esse “”final”” da Gai, real espero que ela esteja bem mesmo (nesse plano ou noutro, vai saber)

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  2. E pro azar da coitada, ela ainda era uma trintona com cara de mais velha. Tem muita gente de trinta e poucos que passa por uns 25, no caso dela, dava pra ver que não, mesmo. Tomara que ela esteja bem hoje em dia :/

    E feliz aniversário!!! 😀

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  3. FELIZ ANIVERSÁRIO RAFINHAAAA 🥳🎂 E nossa eu adorei esse post, de verdade! Geralmente quando falam desse caso, sempre é muito por cima e zoando muito as atitudes dela. Achei super legal você ter dado um contexto geral da situação e mostrar todos os lados!

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  4. Primeiro: Feliz aniversário, Rafa 🥳 Adoro seus posts, seja fazendo review ou trazendo fofocas.
    Segundo: Meio que gostaria que o kpop parasse com isso de “velha(o) demais pra debutar”…Mas acho que isso não funcionaria com o público que consome essa indústria. E tomara que a Lee Gai esteja bem.

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  5. Parabéns Rafaaa! O aniversário é seu, mas o presente é nosso kkk! Adoro quando você traz essas fofocas do mundo pop asiático. Essa eu já conhecia, mas não com tantos detalhes, e adoro aquela das tretas japonesas q vc trouxe.
    Pode sempre trazer mais qnd quiser, é informação que vc traz aqui

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  6. Rafaaaa, feliz aniversário (atrasado)!!! 🥳🥳🥳 Amo os seus textos, sou fã de tudo o que você escreve, e com esse post não podia ser diferente! Obrigada por trazer esse presentão pra nós, gostei muito de conhecer mais a funda a história da querida da Lee Gai.

    Curtido por 1 pessoa

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