[SabadOFF] Ser mãe é se f*der no paraíso

Último sábado do mês é dia de trazer algum tema fora da especialidade do blog e, pra ser sincera, eu meio que tinha esquecido disso. Não por falta de ânimo ou algo assim, mas porque usei minhas férias pra fazer uns exames que eu não poderia mais adiar, e passei essa segunda metade de maio indo pro ginecologista, fazendo exame de sangue e tomando uns remédios pesadíssimos pra tratar uma síndrome que eu sei que tenho há muito tempo, mas só agora resolvi fazer alguma coisa a respeito.

E aí essa onda de exames me deixou melancólica, ao passo em que eu tenho mergulhado no jpop dos anos 2000 nesses últimos dias por conta de um projeto que eu tenho aqui pro blog, e comecei a refletir sobre os meus quase 30 anos. Quando uma amiga minha me disse que os 30 são os novos 20, eu parei pra pensar na minha saúde física, que nunca foi um exemplo pra ninguém, e como eu tenho vivido como se fosse uma eterna adolescente, achando que meu corpo ainda tem a mesma capacidade de regeneração de quando eu tinha meus 18 anos. E, ao mesmo tempo, não achei nada mais apropriado pro SabadOFF desse mês do que falar de uma figura fundamental da minha vida.

Maio é o mês das mães. E o mês da MINHA mãe, já que ela faz aniversário no dia 5, uma data que eu sempre achei… Harmoniosa demais. Eu ouvia ela falar pra instituições que exigiam essa informação que a data de nascimento dela era “cinco-do-cinco-de-sessenta-e-oito” e achava quase uma melodia, sabe? Aliás, minha mãe sempre teve uma voz forte, alta, daquelas que eu conseguia ouvia a quatro casas de distância, geralmente fofocando com alguma vizinha. Mas, nos dias bons (que foram ficando cada vez mais frequentes conforme eu crescia), soava feito uma canção.

O título desse post é a versão dela daquele famoso poema do Coelho Neto, que ela sempre odiou. “Padecer nada, eu nem sei o que é padecer”, ela costumava dizer com desdém enquanto meu pai gargalhava do lado dela. O senso de humor da minha mãe é algo que eu sempre admirei (e de quem eu absorvi muita coisa pra formar minha própria personalidade). É bobo na superfície, mas muito sagaz, principalmente se você convive com ela todos os dias. Às vezes, até me dava raiva, porque ela consegue ser muito debochada quando quer. E como na maioria do tempo ela não sabia o que acontecia comigo, deboche era a última coisa da qual eu precisava. 

Pois é, eu nunca vi minha mãe como melhor amiga, até porque nunca acreditei nisso de relações extras entre mãe e filha. Certas coisas não precisavam do conhecimento dela: meu primeiro beijo, minha primeira transa, minha descoberta como bi… E, ainda assim, com o senso absurdamente apurado que ela sempre teve, essas informações chegaram ao conhecimento dela rápido demais, até mesmo antes de eu pensar na possibilidade dela descobrir. Não sei se a gente abordou isso da melhor forma. Minha mãe sempre foi muito protetora, muito “correta”, daquelas que dizia pra todo mundo que a filha dela não aprontava como as outras. A verdade é que eu “aprontei” e muito, talvez com medo de que ela soubesse o que eu estava fazendo. Mas nunca dava certo: quando ela tinha o conhecimento de causa, não tinha tempo de eu explicar mais nada.

Eu fui uma adolescente que cresceu com constante medo da mãe. Indo no psicólogo por anos e anos, chegaram a conclusão de que ela era narcisista e, vou confessar: até hoje eu me recuso a acreditar nisso. Talvez por todos nós termos aquela visão romantizada da maternidade, de que mãe é um ser sagrado que se iguala à figura santificada de Maria, ou algo assim. Mas, sei lá, eu conheço histórias piores (dentro da minha própria família inclusive) e não consigo encaixar minha mãe nesse papel de narcisista. O que eu provavelmente devo digerir pelos próximos anos até chegar numa conclusão, mas eu parei com a terapia, então não tenho respostas.

Mas crescer ao lado dela me deu inúmeras perspectivas sobre o que é ser mãe, e porque eu nunca gostaria de ser uma. Passar seus ensinamentos pra outro ser humano deve ser uma das tarefas mais difíceis da história. O peso da responsabilidade em criar uma pessoa com tudo aquilo que você considera certo, deveres, costumes, gestos… Por mais que eu tenha lutado e ainda lute contra, eu sou um espelho dela. Que, por sua vez, é um espelho de uma educação abusiva da minha avó, a terceira mais nova entre sete irmãs na periferia de São Paulo. Ela, tanto quanto eu, é uma vítima do sistema, assim como minhas descendentes que nunca vão existir. Aquela que se encaixa perfeitamente no verso machista de Coelho Neto que tanto odeia.

Sim, enquanto eu fazia meus exames ginecológicos pra garantir que eu não tinha um câncer de útero ou algo assim me fez refletir meus 28 anos de existência ao lado da minha mãe. Em como eu cheguei na idade em que ela me teve com meus poucos orgulhos: um teto pra morar e um emprego pra me sustentar. Hoje, morando fora da casa que me criou, eu consigo ter uma relação bem mais saudável com ela, sem brigas e constantes deboches que adoeciam as paredes da nossa casa. E, com isso, eu enxergo o quanto ela padeceu (e se fodeu) pra que eu existisse nesse mundão.

Vocês sabiam que agora eu vendo minhas artes? Lá na Colab55 tem algumas opções de produtos com estampas que eu fiz e você pode comprar pra ajudar essa pobre coitada que escreve o blog.

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