Comercial AYO GG | xANADU, por ExWHYZ

Fazia um tempão que eu não soltava um desses. Não por falta de vontade porque eu gosto bastante de ouvir um álbum por inteiro e escrever sobre ele, mas todas as coisas da vida adulta meio que se juntaram pra que eu não quisesse fazer review. O que é uma pena porque eu perdi o timing de álbuns muito legais, mas também não posso me forçar a escrever sendo que o tempo disponível e a saúde de papel que eu tenho não me permitem.

Só que, às vezes, eu me deparo com álbuns que valem a pena o esforço, seja por ter uma tracklist muito boa ou até por ser uma tentativa minha de atrair mais público pra determinado grupo. Nesse caso aqui, essas duas coisas se misturaram, assim como é de praxe em qualquer lançamento do ExWHYZ, grupo da WACK que renasceu no ano passado como uma potência de pancadões extremamente homossexuais e que eu quero fazer acontecer na blogosfera a qualquer custo porque elas merecem. 

O fato da WACK ter matado o antigo EMPiRE, que já tinha aquela imagem característica anti-idol meio punk, pra redebutar de uma forma completamente diferente foi a maior jogada deles desde a concepção da empresa. Isso porque, em músicas feito essa daqui, o grupo já flertava com o house e mostrou que segurava muito bem o conceito, o que deu terreno o bastante pro ExWHYZ pular a fase de luto e, posteriormente, a adaptação de imagem e sair do forno como um projeto muito bem estabelecido. E acompanhar o ExWHYZ é se deliciar com as possibilidades artísticas que o jpop proporciona.

Nesse novo trabalho batizado de xANADU, o grupo expande ainda mais o universo da música eletrônica, desafiando o mito sobre o gênero ser sempre a mesma coisa; não é. Como eu disse no parágrafo de cima, o jpop ainda parece guardar um resquício de liberdade artística (e aí entendam isso como quiserem) e coragem o bastante em ousar. Pra quem só acompanha kpop, debutar um grupo focado em house e suas variantes pode parecer uma missão completamente maluca que beira o que chamamos de flop. Só que o Japão não tem essa visão de fracasso. Eles têm se aberto pro mercado ocidental nos últimos anos, mas de um jeito que mantenha a essência do pop asiático que sempre produziram. E isso é traduzido na música de abertura do álbum. 

A partir daí, xANADU caminha por uma sequência insana de pancadões de fritar o cérebro. Blaze continua de onde a introdução nos deixou, mas de forma muito mais intensa, sentindo cada grave pulsar dentro da nossa alma. Essa dobradinha é fruto da primeira parceria entre o grupo e Miru Shinoda e Kento Yamada da banda de synthpop Yahyel, e Blaze poderia se passar tranquilamente por trilha sonora de uma luta entre membros da família Kazama em algum Tekken da vida por conta dessa aura caótica que ela carrega do começo ao fim, como se o apocalipse estivesse mais próximo do que a gente imagina. 

E se Blaze parece o fim do mundo, Des Speeching é o que vem depois, certamente algo que tocaria numa balada distópica que o protagonista, perdido no meio da destruição por meses, descobre e aí ele percebe que muito mais gente sobreviveu a tudo. Des Speeching é mais uma cartada excelente do Mondo Grosso, que sempre consegue traduzir os sentimentos mais abstratos que um ser humano pode sentir numa pista de dança, daqueles que fazem nosso corpo se mover de forma involuntária. Essa música é uma perdição, quase uma toca de coelho sem fim que aguça nossa curiosidade, como se a gente fosse a própria Alice adentrando aquele mundo louco do país das maravilhas. Em seguida, temos Answer, que dá uma desacelerada em tudo sem deixar de ser um ótimo exemplar eletrônico do grupo. A aposta em um trap mais compassado talvez fosse algo que eu esperaria da Billie Eilish, mas Answer fecha com honras esse primeiro terço do álbum.

First Step pode ser considerado o ponto mais baixo da tracklist. Com divulgação em pleno dia da mentira, eu prefiro acreditar que a existência dessa faixa seja uma brincadeira de primeiro de abril, até por adicionar uma menina do BiSH no line-up só pela piada, mas não sei se ela se encaixa de alguma forma aqui. No geral, First Step é um número rockish que outros atos da WACK lançam tranquilamente, mas nem nos tempos de EMPiRE elas soltaram uma assim, e no meio de tantas pérolas, a música acaba perdendo potencial, virando um filler sem graça. Super Simple vem logo depois e, apesar de simpática, não recupera o fôlego. 

Walk This Way é uma surpresa por contar com produção do estúdio 153/Joombas, que também assinou algumas coisas do LOONA. E, por isso, ela realmente parece algo que o grupo lançaria no infame comeback cancelado pós-expulsão da Chuu. Não duvidaria se fosse uma demo de lá mesmo que acabou nas mãos da galera da EMI Japan. Na sequência, Metronome recupera a loucura eletrônica do começo da tracklist, mas de um jeito curioso que faz soar como algo do Nakata sem o nome do Nakata, principalmente nos seus anos mais capengas. No ExWHYZ, no entanto, ela parece divertida e dá um pouco mais de vida pro miolo do álbum. 

Abrindo o ato final de xANADU, Dive provavelmente é a faixa mais interessante dessa leva. Ela percorre alguns caminhos inesperados e traz lembranças de gêneros que, normalmente, não combinam ou ao menos seriam esperados aqui, como o funk característico de algumas produções japonesas e um pouco de bossa nova. Mas o que faz Dive algo tão legal são exatamente esses glimpses do instrumental: ele te lembra algo, mas você não sabe dizer o quê. É uma música que brinca com memórias e causa uma melancolia acidental que desemboca numa linha de guitarra indienesca dos anos 90. Darling vem em seguida e lembra qualquer álbum track esquecida do Perfume, mas não ofende. Na verdade, eu até gosto porque ela ajeita a tracklist pros seus momentos finais. 

Com Everything, o xANADU encerra seus quase 40 minutos de música eletrônica abordada das mais diferentes formas. De algum jeito, o ExWHYZ consegue entregar uma tristeza quase avassaladora aqui, com uma parede de sintetizadores intimista e também intimidadora, daquelas que acolhem e ao mesmo tempo engolem a gente. É um ótimo final porque elas conseguem enganar o ouvinte perfeitamente como se isso fosse um adeus definitivo num clima de despedida de uma festa que nunca mais vai acontecer novamente. O que não é verdade, já que hoje não existe grupo feito o ExWHYZ, e elas vão continuar existindo e resistindo dentro desse nicho techno-rave-gay-house do pop asiático. 

Nota: 9/10

Favoritas: xANADU, Blaze, Des Speeching, Answer, Dive

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