Com orçamento limitado, FIFTY FIFTY consegue fazer absolutamente tudo que certas empresas andam tentando (e falham miseravelmente) no seu EP de estreia

Duas coisas são fato em 2022. A primeira é que, por algum motivo, álbuns visuais estão virando tendência, principalmente nas mãos de grupos debutantes. Vimos o sucesso arrebatador do NewJeans ao se apropriarem do conceito (uma coisa que, inclusive, eu fico pensando em como elas vão superar). Eu gosto de álbuns visuais quando existe espaço pra tal, ainda que não seja exatamente o que vai fazer sucesso lá pela Coreia do Sul, mas quase sempre rendem produtos bem legais. E a segunda é que empresas menores andam botando as grandonas pra mamar.

Nesse meio tempo em que o blog tá com as postagens instáveis, eu fiquei sabendo de um grupo novo chamado FIFTY FIFTY, que tem uma proposta meio maluca de abordar a música de um jeito diferente, como se fossem uma linha tênue entre o real e o metafísico. Ou algo assim. Mas não tem nenhuma patifaria parecida com KWANGYA ou transições horrorosas do NMIXX, e como o projeto de debut é totalmente visual, achei que seria uma boa ideia fazer um post sobre.

O que me atraiu enquanto eu pesquisava sobre o FIFTY FIFTY e tentava entender mais sobre o que a empresa pretende com elas (e também me questionando se esse projeto consegue caminhar depois do debut) é que existe uma linha do tempo bem subjetiva entre um MV e outro e talvez seja o que faça a amarração no conceito por inteiro. Daí montei um fluxograma que ilustra de forma prática a minha teoria sobre o que realmente o FIFTY FIFTY quer dizer com o material já existente e também daqui pra frente, coisa que eu não fazia desde quando eu passei a acompanhar o LOONA depois do debut da famosa pirralha do sapo (palavras do Miojo Pop).

Eu imaginei que a ordem de lançamento dos MVs não fossem seguir uma cronologia dos acontecimentos do “universo” do FIFTY FIFTY (entre aspas porque nem sei se a gente pode chamar assim), mas depois que fiz o fluxograma eu percebi que essa é a ordem das faixas na tracklist e só esse fato me fez rir bastante, além de achar uma ótima sacada pra dar melhor embasamento pra minha teoria num todo. Posto isso, começamos com Tell Me, um disco pop bem bobinho que mostra por mais de três minutos o quarteto num piquenique, que é o que podemos chamar de “mundo real”. Sem edição, sem jogo de câmera, é quase uma captura de vídeo de animais no seu habitat, uma coisa meio National Geographic. 

Tell Me cumpre bem a função de apresentar o grupo dentro da própria proposta, que são elas vivendo uma vida normal entre amigas na realidade que conhecemos. E a situação é tão perfeita que ultrapassa aquela linha tênue que eu comentei mais pra cima. De repente, observando demais, não são mais 50/50 exatos. Parece até propositalmente encenado e o plano escolhido pra filmar começa a ficar esquisito e desconfortável, como se elas soubessem que estão sendo filmadas. 

E aí temos Lovin Me, responsável por mostrar um lado mais artístico do grupo, desde os vocais, que soam incrivelmente crus, à direção do MV. Vocês podem perceber que as minhas teorias a respeito do FIFTY FIFTY caminham mais pelo lado visual do projeto do que o restante, e é justamente a forma como esse vídeo foi feito que me leva a crer que é uma continuação dos acontecimentos da música anterior. 

Antes, vale destacar o ótimo dueto entre as duas meninas do grupo. Quando eu digo que os vocais parecem crus, é que eles são extremamente confortáveis de ouvir como se houvesse o mínimo possível de processamento em cima deles. Lovin Me é carregada de sentimentos, num synthpop melancólico que me causa dor no peito, uma angústia como se o mundo estivesse prestes a acabar a qualquer minuto sem saber exatamente quando. E essa sensação também é transmitida no MV.

Ao longo dele, conseguimos ver o uso frequente de metrônomos, relógios, ampulhetas. Até a batida da música segue um compasso e ajuda a ilustrar melhor a informação de que o tempo tá passando e, sem saber o porquê, causa desconforto. Reparando a montagem do MV, que é feita de cortes rápidos e colagens de memórias do piquenique em Tell Me, é como se o “fim de algo está próximo” e elas estivessem se fragmentando. Acompanhada de uma metáfora do peixe preso no aquário, é de conhecimento ali que não existe escapatória.

Então a linha do tempo se divide em dois, evocando o nome do grupo: 50/50. Na realidade boa, existe Higher, que até parece ameaçadora no começo, mas se mostra um paraíso futurista, quase uma utopia, e lá cada uma das integrantes vive em paz consigo mesma e com o ambiente ao redor. Uma bossa-nova moderna dá o tom aqui, conseguindo ser tão sinestésica que eu até posso sentir meu corpo mais leve, a ponto dos meus pés tocarem nas nuvens.

Higher segue a linha mais “tradicional” de MVs de kpop, com cenários pré-montados, direção padrão, apresentação de membros de modo que cada uma consiga demonstrar seus talentos pra quem assiste. A música, apesar de não ser nada de horrível que se espera da quarta geração, tem uma estrutura comum equilibrada entre vocais e raps e, bom, a letra é sobre amor, como sempre. O que desperta a curiosidade aqui é, mais uma vez, entender como Higher se comunica com as demais faixas do EP, coisa que a próxima música pode explicar.

Do outro lado da moeda, temos Log In, talvez o número mais ousado e, principalmente, diferente dessa leva. Foi a única faixa que recebeu um performance video em vez de um MV mais elaborado, mas acho que faz sentido, já que até o momento o grupo quis demonstrar como elas atuam em cada uma das áreas requisitadas pra uma idol. Log In é mais focada na coreografia e ver como elas performam em uma unidade. Só que o que causou estranheza nas reviews que eu li foi o fato disso aqui ser quase um estranho no ninho.

Nem tudo poderia ser flores. Como o conceito por trás do FIFTY FIFTY se baseia nesse limite entre o real e o imaginário, Log In faz o papel de questionar pra quem assistiu Lovin Me qual é a realidade verdadeira. O “universo” de Higher existe, ou elas sempre estiveram presas numa distopia? Será que, algum dia, elas já foram pessoas reais? Dessa vez, conseguimos analisar a letra da música e entender que o quarteto é um conjunto de dados que deseja se rebelar contra o sistema, mas que talvez não seja possível. Lembram do desconforto assistindo Tell Me? A explicação tá no último verso de Log In: eu estou sob o controle [de algo ou alguém], ninguém consegue parar isso, controle completo. Isso ajuda a entender porque elas agem de forma tão suspeita.

Teorias são sempre a parte engraçada de se acompanhar projetos audaciosos e até um pouco confusos como o FIFTY FIFTY. Ativa nossa criatividade e faz com que a gente anseie por mais conteúdo a ser consumido, ou pelo menos só eu me sinto assim em relação a elas. Fato é que, sendo verdade ou não, fazendo sentido ou não, é interessante ver que uma empresa minúscula e recém-chegada ao mercado consiga costurar conceitos de uma forma tão legal, coisa que a SM vem tentando fazer com KWANGYA e não consegue. O FIFTY FIFTY tem tudo pra ser um grupo esquecido, mas igualmente amado por aqueles que sentem fome de novidade no pop asiático. 

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Um comentário

  1. quase parece uma piada com a real situação delas de idols: controladas pela empresa, observadas pelos fãs, presas num contrato injusto. Espero que saibam usar isso hein e ser bem ousados.

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