Atsuko Maeda, ex-idol, atriz, mãe: o que existe por trás do monstro de vendas do AKB48

Eu queria fazer esse post há muito tempo e, com a falta de pauta nessa semana (e minhas férias chegando ao fim), tive um tempinho pra voltar a pesquisar e discorrer sobre um assunto que eu acho extremamente necessário não só pra quem é fã, mas pra todo mundo que se dispõe a acompanhar a vida de algum famoso.

Se você é um fã do AKB48, mesmo que das gerações mais novas, não tem como não conhecer o nome Atsuko Maeda. A menina “tímida e pessimista” de Chiba, conforme foi descrita por Yasushi Akimoto, trilhou seu caminho brilhantemente até o posto de face do grupo AKB48, o mais famoso do planeta, e até hoje mantém seu legado mesmo após graduar-se repentinamente em 2012. 

Depois disso, o que se viu foram especulações pelo motivo da sua graduação do AKB48, banimento de qualquer programa ou filme co-estrelado por qualquer artista da Johnny’s Entertainment e um escândalo relacionado à bebida alcoólica (com a adição de ter sido carregada sem calcinha pelas ruas de Tóquio por um possível namorado da época). 

A forma como a Atsuko foi tratada pela mídia em seu período pós-AKB48 beirou o desumano, com imagens dela chorando desesperadamente “por nada”, mas esse “nada” tomaria forma de fake news de fãs se suicidando pela sua saída do grupo, índices baixíssimos de audiência por doramas que ela protagonizava e até um Hebi Ichigo (o framboesa de ouro do Japão). 

O começo do AKB48 foi conturbado. Integrantes chegaram a ficar no frio da noite de Natal em frente ao Don Quixote entregando folhetos para suas apresentações no 8º andar e muitas desistiram do sonho prometido nos banners divulgados pelo próprio Akimoto. Eram meninas entre 14 e 19 anos tendo crises existenciais no camarim do teatro por precisarem fazer shows, muitas vezes, pra uma plateia vazia. Essa história de superação seria contada em River, o último single de 2009 e o primeiro a alcançar o primeiro lugar dos charts da Oricon.

Akimoto acabou escolhendo Atsuko para ser o rosto do grupo ao passo que ele crescia em popularidade, e ela acabou ganhando todas as primeiras posições nos eventos que ficariam conhecidos como Senbatsu. De repente, um grupo que foi formado por garotas com sonhos se tornou mero negócio, com posições privilegiadas conquistadas através do voto popular. E a Atsuko se deu conta de como era solitário estar no topo o tempo todo. 

Ser o centro do AKB48 significa que seu rosto vai estampar todos os singles, notícias, programas de TV, anúncios de metrô, propagandas e todo tipo de mercadoria que você possa imaginar. Você ganha mais espaço, versos e oportunidades, tem a chance de sentar no meio dos programas, onde a câmera tem o melhor foco, e falar por todas as meninas (que não são poucas), sintetizar o sonho de todo mundo em uma única pessoa. 

Claramente, todos esses pontos destacados acima não vêm sozinhos. Por trás, existem regras minuciosas que toda integrante do AKB48 precisa seguir, mas o centro do grupo precisa ser duas, três, quatro vezes mais cuidadoso, pois todos os holofotes estão virados para você; um passo em falso e toda sua vida pública vai pro ralo. 

A tímida Atsuko de 14 anos cresceu tendo uma vida diferente das garotas da sua idade, e foi moldada pelo Akimoto a ser sorridente, feminina, delicada, graciosa, a adolescente dos sonhos de todo fã do AKB48. Sua personalidade mudou e ela cantava as letras sexualmente sugestivas do Akimoto de forma inocente, instigando a imaginação do fandom não-tão-estranhamente adulto do grupo, fandom esse que cresceu unha e carne com o Akimoto e sua equipe nos primeiros anos, e hoje cumpre o papel de fiscalizador das integrantes para que elas não cometam nenhum ato fora da conduta AKB48 de ser. 

Não foi sempre que a Atsuko cumpriu o papel de centro; ela e sua caloura Yuko Oshima disputaram a coroa algumas vezes durante os chamados “tempos de ouro” do AKB48 e, por muitas vezes, Atsuko se disse aliviada por não chamar tanta atenção quando Yuko a “substituía” na função de elevar o nome do grupo a um novo patamar. Em muitas eleições de popularidade, Atsuko captava a audiência torcendo contra seu sucesso. E odiar o centro é odiar todas as outras meninas que saíram de suas vidas normais para viverem o sonho da fama.

Quando o AKB48 ganhou o mais importante prêmio da cerimônia de final de ano, o Japan Record Awards, com Flying Get, em 2011, Atsuko chorou um choro que não era de felicidade, mas de alívio. Como mostrado no documentário “The Troubled Times of AKB48”, ela chorou e soluçou por uns 30 minutos entre o anúncio do prêmio e a entrevista nos bastidores, numa clara mensagem de que existem pessoas dentro do Japão que não a odeiam e, principalmente, não odeiam o grupo que ela tanto ajudou a se erguer.

A graduação da Atsuko veio um ano depois, e ela não teve tempo de ver pessoalmente que seu antigo grupo ganharia o Grand Prix da edição daquele ano. Aliás, 2012 deve ter sido um misto de emoções para ela, e aposto que ela chegou a pensar se sobreviveria sem ser a Atsuko Maeda do AKB48. As notícias de uma Atsuko bêbada, chorosa e carregada por aí provam isso, e como a mídia na época explorou esse caso a ponto de reduzi-la somente a isso: uma ex-integrante do maior grupo já visto tropeçando vergonhosamente sem calcinha por aí. 

Essa concepção começou a dar sinais de trégua quando Atsuko ganhou um prêmio em 2013 por sua atuação no filme Tamako in Moratorium, do diretor Nobuhiro Yamashita, com quem ela já havia trabalhado um ano antes. Desde então, ela atuou em vários filmes de diretores renomados e doramas de sucesso razoável, mas sempre se mantendo viva no imaginário coletivo do japonês médio. E, nessa empreitada de atriz, Atsuko conheceu o ator Ryo Katsuji enquanto atuavam no live action do mangá The Gutsy Frog, em 2015, que posteriormente se tornaria seu marido e pai de seu filho, que nasceu em uma data simbólica de possíveis lembranças estranhas para ela: 4 de março.

Talvez isso fosse mais que o suficiente para que Atsuko se desvencilhasse do seu passado, visto que integrantes do AKB48 são proibidas de namorar. Agora ela era mãe, tinha sua família e uma carreira legal de atriz, coisas que a Atsuko do AKB48 jamais poderia ter. Mas será que a mente fragilizada da Atsuko permitiria que ela vivesse feliz a sua nova vida? 

O que a Atsuko sofreu no AKB48 foi uma sucessão de pequenos abusos psicológicos. Ser exposta tão nova para uma crescente horda de homens adultos que consomem sua imagem de eterna garota colegial, protagonizar vários vídeos e músicas com mensagens de teor sexual (sendo nosso maior exemplo o famigerado single Heavy Rotation, que eu já falei mal aqui no blog) e ser mencionada pelo seu patrão como uma pessoa estóica e indiferente de forma cínica são alguns exemplos. O dano em ouvir milhares de pessoas gritarem seu nome com ódio e desprezo é imensurável. 

Tão rápido quanto o casamento de Atsuko e Katsuji foi a suposta separação. Tudo isso contribuiu com o fato de, meses depois do nascimento do filho, o casal já andar por aí sem usar suas alianças. Como o site Josei Seven bem mencionou na sua matéria, o casamento dos dois já andava deteriorado há tempos, por conta da instabilidade da Atsuko em se manter em um relacionamento e também por agressões causadas pelo Ryo Katsuji.

É dito que ele tem um complexo enorme com a carreira da Atsuko ser mais bem sucedida que a dele, mas não só isso, como ele também se negou a ajudar com as despesas e cuidados do filho. Esses dois tópicos foram motivos de inúmeras brigas por parte dos dois até resultar em um machucado na perna da Atsuko, que a afastou de seus compromissos profissionais em maio do ano passado. 

Pelo lado do Katsuji, o Arama! divulgou uma notícia de que ele “não aguentava mais ser o marido da Atsuko”. Enquanto ela queria dedicar seu tempo a ser uma mãe como a sua própria tinha sido para ela, Katsuji se isolou na casa, declarando que o fato de Atsuko dedicar tempo demais ao filho e aos seus pais estava desgastando seu casamento. Todo essa inveja excessiva do Katsuji ser visto apenas como o marido de uma grande estrela do famoso grupo AKB48 acabou resultando num relacionamento tóxico do qual a Atsuko não tem coragem de sair por conta do preconceito que mães solteiras sofrem no Japão e por todo um histórico de dependência emocional e necessidade de validação que ela adquiriu sendo uma idol.

Daqui de fora, a gente só pode esperar que a Atsuko consiga se sobressair em segurança com seu filho e buscar apoio emocional dos pais (que já moraram com ela por iniciativa do Katsuji e foram expulsos pelo próprio). Atualmente, ambas as partes conversam a respeito de uma reconciliação amigável, enquanto o Katsuji ameaça jogar sujo por baixo dos panos, exigindo visitas regulares ao filho, o que a Atsuko não quer. No meio disso tudo, temos uma ex-idol, atriz e mãe com a mente extremamente fragilizada, disposta a fazer de tudo pela sua criança, inclusive manter um relacionamento com um agressor cada vez mais rejeitado pela mídia, com propostas de trabalho cada dia mais raras. 

O preço a se pagar para manter o status de monstro de vendas do AKB48 é alto. Atsuko Maeda, que ajudou a levantar o grupo ao seu patamar de hoje praticamente da poeira, é o maior exemplo vivo disso. Prestes a completar 30 anos de vida, que ela possa finalmente buscar resiliência nos braços de quem realmente se importa.

Autor: Rafa

26 anos, de São Paulo e ativa nessa vida de pop asiático há mais tempo do que eu gostaria.

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