DJ Put It Back On | KARD – Rumor

Como vocês já sabem, o AYO GG é focado em falar de mulheres. Grupos femininos, artistas solo, parcerias inusitadas, qualquer coisa que envolva só e somente mulheres. Por que, você pergunta. Não vou negar que conheci o kpop através de homens (tanto que EXO foi meu grupo preferido por anos), mas, ao longo do tempo, eu percebi que tinha uma mágica em acompanhar o lado feminino da indústria. Que elas tinham um maior espaço pra brincar com conceitos e gêneros e que o resultado parecia sempre mais interessante, ganhando um prazo de validade muito maior. Existem músicas dessa safra que, até hoje, depois de anos de lançamento, ainda me impressionam. 

Nessa “segunda era” do blog, eu tenho me esforçado em trazer coisas que fogem um pouco do tema principal que eu propus lá na sua criação. A gente tem o quadro fixo de descobertas japonesas, além de já ter comentado a respeito de boygroups em algumas ocasiões (inclusive, to preparando um post especial sobre isso que provavelmente deve ser a pior ideia que eu já tive, mas let’s que let’s) e, dias atrás, ter usado esse espaço de memórias pra relembrar o debut mais legal de dez anos atrás (spoiler: foi de um grupo masculino). Mas eu percebi que ainda não tinha tido a oportunidade de falar a respeito dos temidos grupos mistos. 

É claro que o KARD não foi o primeiro grupo misto da história do kpop; na primeira geração, era até comum. Não sei dizer o motivo e talvez não exista uma pesquisa profunda a respeito do assunto, mas se eu fosse chutar, eu diria que os anos 90 foi uma década disruptiva na música coreana. Primeiro com o surgimento do Seo Taiji and Boys, que mudou completamente a maneira de se consumir música por lá, depois com os pilares da indústria atual sendo construídos aos poucos formando a famosa Big 3 (que continua sendo Big 3, você discordando ou não) e, paralelamente, com uma grande massa de meninos e meninas se juntando para formar um grupo como símbolo de “igualdade”, seguindo esse tom revolucionário que caminhava sobre o país. 

Tivemos o Koyote e o Sharp dominando a primeira geração do kpop, seguidos no páreo pelo Roo’ra. Mais pra frente, já em 2010, o Coed School deu as caras, resgatando o formato e se provando ser uma FEBEM do pop asiático pela quantidade de polêmicas que esse grupo já se envolveu (eventualmente, eles foram separados nas garotas do F-ve Dolls e nos garotos do SPEED). Morto por mais alguns anos, os grupos mistos voltaram a ganhar certa notoriedade com o elaborado projeto de debut do KARD. 

Olhando em retrospecto, eu fico um pouco maravilhada com o contexto em que o KARD surgiu. Ao contrário da modesta popularização que esse tipo de formato teve durante os anos 90, em 2016 era uma ideia vista com desgosto; e pra isso, sim, existem alguns estudos. Os pesquisadores apontam que a grande motivação pra se acompanhar grupos de pop é, óbvio, a tendência de mercado. Meninas querem consumir oppas. Meninos querem projetar a imagem da mulher dos seus sonhos. Essa uniformidade, esse padrão se perde completamente quando temos um grupo misto, e por isso eu ainda corroboro com a minha teoria de que, anos atrás, era transgressor que meninos e meninas andassem juntos. E quando a gente olha pro KARD, dá pra sacar isso muito bem. 

Foi uma aposta arriscadíssima da DSP, que já tinha perdido o KARA e ainda patinava pra manter o April relevante na onda white aegyo que fazia uma devastação musical no período. Mas, se a gente observar bem, a pesquisa dos envolvidos na produção pareceu certeira, pelo menos durante a trilogia do pré-debut. Em 2016, o pop mundial passava por uma onda de dancehall. O grande hit do ano ainda era a arrebatadora Sorry, do Justin Bieber, que serviu o molde exato pros produtores de kpop da época abusarem da sonoridade por uns bons anos, só que ninguém entregou tanto fogo nos olhos e sangue latino quanto o KARD em Rumor, o último single antes do debut oficial do grupo.

Uau…

A interação artística entre o quarteto era absurdamente hipnotizante, algo que você não consegue extrair de grupos somente femininos ou masculinos. Ainda que coreografado e dentro dos limites da censura coreana, existia uma certa, ahm, tensão sexual que ajudava a criar essa atmosfera mais steamy. Meninas rebolando no colo dos cria enquanto eles fazem cara de mal pra câmera é o mais próximo que a Coreia do Sul chegou da América Latina em anos e o KARD vendia isso muito bem. Li em uma entrevista uma vez que as meninas ficavam confortáveis em torno dos caras porque eles eram muito amigos e, principalmente, adultos que se respeitavam (uma regra que, aparentemente, eles devem ter imposto pra todos os envolvidos com o projeto saberem onde a tenuidade dessa linha terminava pra ambos os lados). 

Como música, Rumor não fica muito atrás. Eles já tinham trabalhado a sonoridade nos dois singles anteriores, mas aqui é como se ela ganhasse ares de melancolia, uma camada fina de latinidade que flerta com o reggaeton. Não consigo ficar séria com os vocais ultraprocessados, aos grunhidos dos dois caras de vozes grossas recheados de autotune, aos enxertos de rap eletrônico que soam como se uma máquina ganhasse vida de repente. O pré-refrão é irresistível com os where you at my love where you at my love, um lamento entoado em coro pelos quatro, quase fora de sintonia, mas tão orgânico. E o derradeiro refrão que me teletransporta pras ruelas de Medellín. Sem letra, apenas sentimentos, yo soy latina wey no mames. 

É uma pena que o KARD não tenha tido o sucesso que se esperava pra eles. Quer dizer… Eu, pelo menos, esperava algo. Visto que o kpop sempre tá de olho no que o Justin Bieber faz (só olhar o catálogo penoso do Kai), eles tinham tudo pra estourarem por uns bons anos onde o dancehall reinou absoluto, sofrerem uma pequena queda e voltarem com tudo (ou pelo menos tentarem) quando o Bad Bunny lançou o DTMF. É um grupo matador na sua concepção. Grupos mistos, na sua maioria, são assim, mas os coreanos não estão preparados pra ver meninos e meninas adultos se esfregando. Oito anos de lançamento e Rumor ainda continua sendo um dos melhores exemplares do gênero (e do formato). Uma pena mesmo. 

Bluesky | Twitter

2 comentários sobre “DJ Put It Back On | KARD – Rumor

  1. Acho que a onda de grupos mistos no K-pop tem muito a ver com a popularidade de grupos mistos no J-pop e no pop europeu (Tipo, os anos 90 eram cheios de grupos mistos bombando no ocidente pro K-pop se inspirar e o Co-ed school é basicamente a resposta coreana ao sucesso do AAA no Japão). O KARD meio que surgiu no ápice do fanservice e não tinha nenhuma graça fetichista em shippar integrantes em casal hetero, então acho que estava destinado ao fracasso (Acho até engraçado como eles conseguiram uma fanbase engajada por aqui), daí não tinha como engajar qualquer nicho para o grupo mesmo

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  2. Eu gosto das músicas antigas deles, mas depois do debut eles decaíram, acho que “Don’t Recall” é a melhor música, mas “Rumor” tem a melhor coreografia, a parte da troca das duplas, icônica.

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