Vocês já sabem da história toda. Não vou usar mais um post pra dizer que algo aconteceu com a química do meu cérebro no ano passado e me impediu de continuar tocando essa birosca da forma que eu vinha fazendo nos últimos anos, mas, caso você não saiba porque eu estou lançando uma edição extra-oficial do ranking das 100 melhores de 2024 em 2025: é por isso aí que eu disse mais pra cima.
Bom, comentei anteriormente que, em algum momento, esse post surgiria por aqui, mas rolou um pico de produtividade nesses últimos dias que me fez reorganizar toda a minha lista abandonada e relembrar tudo que saiu referente ao pop asiático do último ano. Não foi uma tarefa muito legal, pra falar a verdade. É complicado se permitir sentir emoções tardias a respeito de um lançamento que hoje, março-quase-abril de 2025, quase ninguém mais fala sobre; me sinto chegando numa festa que já acabou. Mas, pra seguir com um pouco mais de repertório com os comebacks que ainda estão por vir, me vi na obrigação de matar 2024 através de uma playlist e um post especial.
Obviamente, eu não vou cometer a insanidade de fazer um ranking oficial, com todos as sete partes e parágrafos enormes pra cada uma das músicas porque eu ainda não cheguei nesse estado de sítio mental, mas, sim, me dei o trabalho de dispor as 100 melhores numa lista do Spotify pra vocês ouvirem e aquela coisa que eu faço todo ano. Como eu sei que vocês vão cagar pra isso, vou dar alguns spoilers abaixo pra atiçar um pouco a curiosidade da galera:
– Eu gostei dos solos do Red Velvet, inclusive um deles tá surpreendentemente alto (e talvez não seja o que vocês esperam);
– Sabe aquela música insuportável que tocou todos os dias desde que saiu? Sim, você sabe qual é. Então, ela tá aqui e é insuportavelmente legal;
– Assim como nas listas do Lunei e do Dougie, o álbum do Perfume marca presença na playlist, e uma das músicas chegou bem perto do top 10;
– A cantora que vocês se recusam a pronunciar o nome também tá bem alta;
– Agora aquele grupo que eu gosto e até fui no show morreu exatamente na metade do ranking, pra felicidade da Senhora Taeyeon (que situação);
– Outro grupo pelo qual eu sou muito lembrada também não teve lançamentos expressivos no ano passado (morrendo de medo do disband; atualização: elas tão vivas!);
– Sobre a briga de ex-integrantes do LOONA: duas delas abocanharam ótimas posições, enquanto o outro (mais famoso) teve a maior quantidade de faixas na playlist, mas só sobreviveu até o top 30;
– O grupo bloqueado pela justiça conseguiu duas entradas no top 20, mas não conseguiram nadar entre as dez melhores por mais um ano seguido;
– Sobre o top 10, temos oito coreanas (sete grupos e uma solista) e duas japonesas (dois grupos).
É isso. Depois que vocês terminarem de ler esse post, por favor, espalhem a palavra, cliquem na playlist e deem uma moral pra mim porque… Bom… Porque sim.

Menção honrosa: Haru Nemuri, Frost Children – Burn

A primeira vez que eu ouvi falar da Haru Nemuri foi no saudosíssimo blog do Rodrigo, o Ásia Asiática, mas nunca parei pra ouvir de verdade. Não sei muito bem o motivo; acho que, na época, eu não tava muito afim de perder parte da minha audição pra algo que se entitula como noise rock, o que é uma ironia incrível já que, anos depois, eu caí numa toca de coelho sem fim que é a discografia de uma banda japonesa chamada Boris (mas isso é papo pra outro dia). Ou talvez eu até tenha escutado, mas devo ter achado… Ruim? Não é a palavra certa. Olhando em retrospecto, tudo que a Haru Nemuri produz é, no mínimo, curioso. Por vezes, muito industrial; por vezes, muito “artístico”. É o tipo de coisa que os incels que frequentam o Rate Your Music e o canal do Anthony Fantano apreciam de forma endeusada e tudo fora daquilo não é considerado música de verdade, bobagens assim. Acontece que, através do Rodrigo, eu descobri que a Haru é muito engajada, política e socialmente, citando artistas como Rage Against the Machine como uma das suas maiores influências e transformando a dor da própria juventude em arte. Ao se juntar com os irmãos do Frost Children em Burn, é como se fosse uma manifestação dos esquisitos e rejeitados pra toda uma nação gigantesca que, talvez, possa se identificar com o trio, em prol da visibilidade. O dance punk contorna a faixa toda, mas é do refrão em diante que Burn brilha de verdade, encharcada em crunkcore extremamente Starstrukk-no-Disk-MTV-numa-tarde-de-2009, sem toda aquela parafernalha besta que o 3OH!3 carregava consigo. É daqueles números que fazem a gente prender a respiração, porrada atrás de porrada; um berro millennial. Foda demais.
10. LE SSERAFIM – Crazy

Pelo que eu pesquei aqui e ali, o LE SSERAFIM sofreu mais que Jesus no ano passado. Tudo começou com a apresentação no Coachella onde as pessoas acusaram o grupo de, ahm, não saber cantar. Engraçado. Isso não era uma coisa que as pessoas se preocupavam tanto em 2011 em relação a um grupo de kpop, mas talvez os tempos e, principalmente, o público fossem outros. Como resposta, a Hybe soltou um documentário bem Globoplay sobre a trajetória turbulenta das integrantes dentro da indústria, e sobre como os idols no geral extrapolam limites físicos e mentais pra uma única apresentação acontecer como deveria. Um pouco Você Nunca Esteve Sozinha – O Doc de Juliette? Sim. Eu sei que a Sakura não sabe cantar e, pra mim, tá tudo bem. De verdade. Eu ainda consigo curtir momentos divertidos que o grupo entrega, tal qual elas entregaram em Crazy, dançando com o Dougie e o Eduty numa balada duvidosíssima na Rua Mauá (que era adepta ao topless, um detalhe importante). A Eunchae tem o inglês mais cursivo que o da Namie Amuro, mas a minha cabeça tava lotada de cuba libre. Você acha mesmo que eu vou me importar com isso? Crazy é boa, mas não só isso; é uma música de boas referências. De nada adianta produzir um house se você não entende de onde ele veio, ou o que é a cultura ballroom, ou como funcionam as houses e as balls. Pode perceber que Crazy quase não é cantada. Porque elas não cantam bem, fato, e porque elas aparentemente simulam categorias a serem disputadas a sangue, suor e glitter por todos os frequentadores dessa grande celebração queer e negra (sim, e com dançarinos da cena). Às vezes, um pouco mais de alegria no coração e uma carteira assinada resolvem todos esses problemas que vocês tiveram com o LE SSERAFIM. Crystal LaBeija deve estar orgulhosa em algum lugar.
09. Young Posse – Ate That
– Melhor clipe –

Eu me lembro como se fosse ontem. Comentários que inundaram o blog dizendo que o top 100 de 2023 era o primeiro top 100 da história a ter 99 músicas. Que era imperdoável uma música daquele tipo estar na frente de outras tão, tão melhores. Que meu gosto musical era horrível. Que- enfim. Sabia que esse dia chegaria, mais cedo ou mais tarde, mas quem sabe esperar sempre saboreia a vingança com mais vontade. No mais, galera, muito grata por vocês comprarem a ideia do Young Posse. Elas já tinham mandado bem no começo do ano com a igualmente ótima XXL, uma homenagem ao que de melhor o Seo Taiji and Boys fazia na primeira geração (aliás, segundo o produtor, o grande motor dessa música é justamente Come Back Home), mas aqui em Ate That elas extrapolaram qualquer limite. Achei curioso ler por aí que, agora, o maior incômodo que as pessoas têm com o Young Posse é o fato delas “se apropriarem demais da cultura negra” sendo que, huh, é basicamente o ganha pão dos oppas do kpop. Vocês que me desculpem, mas nunca ouvi uma besteira tão grande. Não só por samplear a trilha de abertura do tão icônico GTA San Andreas (acompanhada de cenas do clipe viajadíssimo que fazem um link direto com o jogo), mas principalmente por juntar influências de todos os grandes rappers da cena Ate That triunfa tanto. Os sintetizadores referenciando Grandmaster Flash, o grande pai do hip hop, o jeitão descompromissado do Will Smith quando ainda era The Fresh Prince, combinado com o gansgta rap de grupos feito o NWA e o Cypress Hill; é como se fosse a grande união entre east e west coast. Jay Park chora no canto do banheiro porque ele queria ser legal assim. Ninguém nunca vendeu ou vai vender tão bem esse papel quanto as pirralhas do Young Posse.
08. Yves – Viola

A essa altura, vocês devem saber que new é um dos meus capopes favoritos da história (e uma das minhas músicas favoritas da vida). Não é algo que eu consigo explicar com facilidade. Às vezes, as músicas batem de forma diferente; eu mesma tenho vários exemplos. É uma ou outra escolha na produção, uma virada, um detalhe imperceptível que você nem ao menos sabe o que é, mas ele existe e te toca no fundo da alma, é quase sagrado. Daí, quando toda aquela avalanche de merda aconteceu com o LOONA e as integrantes foram se reagrupando ao seu modo, ninguém imaginaria que a Yves pudesse seguir na carreira musical. Uma compositora, talvez? Trabalhando no backstage como ela já vinha fazendo quando assinou uma faixa do primeiro EP do Loossemble. Quando a galera ficou um pouco em choque com Loop, o blog estava no seu período sabático. Eu sequer ouvi essa música durante os primeiros cinco meses em que ela tinha saído e, quando finalmente dei o play, não fui tão arrebatada como vocês foram. Deve ser aquele negócio de não ter acompanhado durante o fervo, ou os enxertos da rapper lá ficaram meio meh na minha cabeça, não sei, mas não clicou em mim. O que não tira minha admiração pela Yves não só ter escolhido o desafio de seguir solo, mas também por encontrar no alt pop a sua personalidade. É uma coisa que a Coreia do Sul falha muito; ser alternativo por lá é sinônimo de artista mediano que cobra couvert caro, uma armadilha muito fácil de cair quando você é ex-integrante de um grupo emergente como o LOONA era. E como essa faceta eletrônica caiu bem nela! Com Viola, a Yves acerta tudo o que a música anterior não conseguiu, uma das poucas vezes em que o kpop flertou tão bem com o hyperpop. Tem uma certa melancolia aqui que também existe em new (e também existe em Just Like We Never Said Goodbye, da Sophie), mas com essa nova roupagem, é como se eu enxergasse a internet por dentro e visse tudo que existia de aconchegante dentro do ciberespaço implodisse. Outro apêndice do LOONA aparece mais pra frente, mas no conjunto da obra, a Yves permanece sendo a mais interessante de se acompanhar.
07. KISS OF LIFE – Midas Touch

Euzinha sou uma defensora do Y2K nas artes em geral. É minha estética favorita, como vocês já viram algumas vezes em postagens ou pelas roupinhas do próprio AYO GG mesmo. Ter vivido isso em algum momento da minha vida ajuda bastante, a nostalgia das coisas que eu me lembro de ter visto em desenhos ou jogos da época sempre me pega. O grande problema é que esses produtores presenciaram o sucesso do NewJeans e resumiram todo esse rolê em drum and bass vanilla, o que continua sendo um ponto positivo pra mim, mas nem todo mundo alcança um bom resultado (no sentido de qualidade mesmo) e aí restaram um monte de números iguais, meio capengas, que não trazem a “emoção futurista” que se espera do gênero. Então o KISS OF LIFE fez a curva e partiu pra uma direção que ninguém tinha explorado até agora: o bling. Juicy Couture, óculos escuros de efeito gradiente sem armação, gloss labial, botas Uggs, Meninas Malvadas, cintura baixa, In the Zone, Motorola RAZR V3 rosa, loiras que cheiram a Love Spell da Victoria Secrets. Tudo isso é Midas Touch, e ainda bem que é. O maximalismo tecnológico do Y2K é maravilhoso, claro que sim, mas o maximalismo feminino do mid 2000s também pode render umas coisas tão fantásticas. Nada impede que Natty e suas amigas viajem pro passado a tempo de roubar uma demo xerecuda produzida pelo Bloodshy & Avant que a Britney Spears lançaria no seu auge. Parafraseando o Dougie, não existe um ser humano que não tenha sentido uma sensibilidade no seio ouvindo Midas Touch. Ela é a filha de Buttons, de Maneater, de SOS e todas essas tracks de gostosa que saíram especificamente em 2006, que foi o ano mais delicioso pra esse tipo de pop surgir porque eu mesma era uma adolescente com os peitos em formação. Não curtiu? Infelizmente você é feia.
06. Loossemble – TTYL

Que pena o destino das Loossemble. O trabalho delas foi o que mais me empolgou da última vez que me prestei a fazer esse tipo de lista (no que diz respeito a possibilidades e tal), por isso foi um golpe baixíssimo descobrir que a empresa lá demitiu todo mundo. Quer dizer, você é um ex-funcionário da BBC e tem as cinco garotas mais fracas, rejeitadas pelo Jaden Jeong, à sua disposição, algum dinheiro na conta bancária (que obviamente não veio de rescisão) e um sonho. A única medida a ser tomada é abrir um MEI e tentar reviver o LOONA. Como? Fazendo mágica. O que esse grupo fez no debut foi nada mais que isso. A gente pode ignorar o segundo EP delas e dizer que foi a trajetória mais consistente de pessoas envolvendo esse projeto. Sensitive ainda continua sendo o debut mais longevo dessa era pós-LOONA e, pro sofrimento do Jaden, não tem o dedo megalomaníaco dele. Um PJ, somente com a força de vontade, alcançou o que o ARTMS ainda pena pra conseguir: sentimento. Puro e verdadeiro. Às vezes o amor enche a mesa durante um tempo, sim. Acontece de não durar pra sempre e talvez a má administração da empresa delas tenha sido a ruína desse sonho, o que torna TTYL muito mais angelical e biblicamente acurada do que ela é. Não acho que tenha drum and bass aqui; me parece muito mais um afrobeat, mas não convencional. É o afrobeat que um grupo de uma sociedade tecnologicamente avançada lançaria. Um afrobeat de Wakanda, é. Como se alguém lá na CTDENM tivesse ouvido o Fountain Baby, da Amaarae, e tivesse aberto uma porta mágica pra um outro universo e se tornasse obcecado. Eu não disse que tudo envolvendo o Loossemble era mágico? Elas com certeza tinham muito mais pra entregar depois daqui e a gente pode nunca descobrir. Eu choro sentindo o grave pulsar dentro do meu coração.
05. Wednesday Campanella – Tamamo-no-mae

Frequentar o Rate Your Music no ano passado me ensinou algumas coisas. A primeira delas é bem legal: a forma como o site funciona. É como se fosse o Reddit, caso este fosse um site voltado somente pra músicas. As pessoas fazem listas e fóruns pra discutir assuntos e você pode fazer um link com a página de um artista ou álbum, e aí quem visitar esse artista ou álbum consegue enxergar um atalho para o qual esse trabalho foi linkado. Então, quando eu entro na página do Wednesday Campanella, eu vejo um atalho pra uma lista chamada “Gemas Japonesas – Os melhores artistas da terra do sol nascente” e, por lá, eu descubro outras gemas japonesas que possam ser do meu interesse sem uma busca ativa da minha parte. A segunda coisa que eu aprendi é que a galera tem seus artistas preferidos. Ichiko Aoba é um deles. Fishmans é um deles. Wednesday Campanella não é um deles. Ué? Sim. Um sinal de que seu artista é amado por lá é ter um trabalho destacado e/ou uma nota acima de 3,75. O Wednesday Campanella não tem nenhum dos dois e, sem isso, as opiniões são difusas. Esse último álbum, que foi uma recomendação indireta do Lunei, foi altamente achincalhado. Na minha playlist, vocês vão encontrar, pelo menos, três músicas dele, sendo que Tamamo-no-mae chegou até aqui. E essa foi a terceira coisa que eu aprendi sobre o Rate Your Music: as pessoas são bobas. Tenho certeza de que Tamamo-no-mae é algo que eu não deveria ouvir, que tem um selo secreto que só pode ser libertado com as palavras certas, uma lenda japonesa sobre o espírito de uma raposa de nove caudas que finge ser uma cortesã muito bela e inteligente pra possuir o corpo convalescido do imperador Toba (!) ou algo assim, mas sinceramente? A fritação e a citação ao primeiro álbum dos Sparks são os pontos mais altos. Como é bom ser feliz!
04. NMIXX – Dash

E ser feliz também significa deixar ir. Aplicado a esse caso, é o NMIXX largar o conceito extremamente fubango (vocês ainda usam essa palavra?) do mixxpop. Bom, se a gente for analisar bem, não foi um abandono; acho que deve ter rolado uma queima coletiva dos singles anteriores em uma das salas da JYPE, tipo quando os norte americanos queimaram cópias e cópias de materiais dos Beatles depois que o John Lennon disse que era maior que Jesus Cristo. Imagino até o cartaz do lado de fora convidando geral que quisesse participar. Ou todas fizeram o procedimento de ruptura pra esquecerem que, um dia, foram consideradas o pior debut da história do kpop (um pouco pesado se elas entrarem em algum recinto e sentirem o shift no cérebro que ainda as prendam no terrível ano de 2022). A partir disso, amadureceram a ideia. O mixxpop não morreu. Tiveram uma reunião de urgência e apresentaram a versão turbinada de como essa locomotiva chamada NMIXX deveria soar. E, caras, como ela soa bem. Eu não cansei de Dash por um minuto sequer. Em janeiro do ano passado, eu já sabia que essa música iria figurar em alguma posição alta assim que ouvi os primeiros segundos porque é inevitável se render às deliciosas viradas de chave que ela propõe. Toda vez me arrepio com o refrão desacelerando na segunda parte, como quem dissesse “se eu quiser o tom da música muda hein”. Mas não muda e, argh, que raiva. Queria eu ter a autoconsciência de tirar sarro de mim mesma. Eventualmente, Dash se rende ao mixxpop, só que uma das piticas canta I just wanna continue my pace e tudo volta ao seu devido lugar, como se não passasse de um sonho febril. Meio que foi mesmo. Elas são o que há de melhor nessa nova geração.
03. Red Velvet – Cosmic

Muito interessante que o Red Velvet não só sobreviveu intacto ao seu aniversário de dez anos, como também fez um comeback ativamente promovido pela SM. E um comeback bom, vejam só. Se bem que eu não posso chamar Cosmic só de boa, isso sozinho não sustenta esse terceiro lugar. Resumir meus sentimentos em relação a essa música não vai ser uma tarefa tão simples. Posso começar dizendo que ela cresce dentro de mim de forma ensurdecedora, como se meu coração se enchesse de algo fora que eu não conheço. Toda vez que ela muda de ritmo, é um mundo completamente novo que surge diante de mim. Música é um negócio bizarro porque nunca duas pessoas vão se sentir do mesmo jeito. Parecidos? Talvez. Mas nunca do mesmo jeito. E Cosmic deve ser um dos números onde isso fica mais evidente. Você que tá lendo esse texto agora, pode ser que você não tenha se emocionado com a produção disso aqui, ou pode ser que você tenha até chorado como eu chorei algumas vezes, mas dificilmente foi pelo mesmo motivo porque eu sou eu e você é você. E qual foi o motivo? Simplesmente não sei. Você sabe o seu? Também não. E tudo bem porque esse é um dos maiores papéis da música nas nossas vidas. O pano de fundo com o solstício de verão, referências a Midsommar e a lendas nórdicas, esquisitices no geral que só o Red Velvet consegue entregar tão bem, cara, tudo isso é muito legal, mas o que me encanta mesmo em Cosmic é a maneira como a faixa vai se modulando nos meus ouvidos. O pós-refrão, repetido à exaustão nos segundos finais, cada vez mais e mais se construindo em torno de si mesmo com essa parede enorme de vocais é de me botar de joelhos. É intergalático, cósmico, mágico, não se mede pelos padrões atuais, a ciência de hoje não consegue explicar. Tem dias que o kpop é lindo.
02. f5ve – UFO
– Melhor jpop –

Esse grupo… Contrataram uma gay de fórum pra gerir as redes sociais e agora elas não conseguem ultrapassar o status de meme com sucesso sólido e meu medo é que humor não pague as contas no futuro e elas sumam. Logo agora que o projeto saiu do papel e começou a lançar coisas boas depois de romper a lavagem de dinheiro que tinham com a Naoko Takeuchi, porra, que desperdício. O f5ve é a merda mais divertida que saiu da LDH desde a concepção do E-girls, e como a blogosfera é meio que órfã do megazord do jpop, todos abraçamos essas monildas de peito aberto, nossas mães. Particularmente, eu gostei de tudo que o f5ve soltou até o momento, então na playlist vocês vão encontrar os outros dois singles em diferentes posições (se quiserem um spoiler, a música mais baixa é um top 40), mas eu fui laçada pela loucura que é UFO. Sei lá quantas vezes seguidas eu ouvi essa porcaria desde que saiu. Conheço todas as viradas, sei de cor todos os vocais e a forma como elas pronunciam as palavras, a letra tá todinha na ponta da minha língua e eu amo repetir oh my oh my god oh she just hit the lotto pocari in a bottle kanojo ga itte shimatta por todos os cantos. Bubblegum bass deve ser a melhor coisa que o pop asiático se apropriou no ano passado, com ótimos representantes da Coreia do Sul, de Taiwan e, agora, do Japão: meu preferido. UFO se utiliza da metáfora do gacha pra conquistar o amor e eleva esse roteiro ao extremo, não só por enfiar referências sobre como funcionam e quanto custa brincar numa dessas máquinas, mas também por serem seres extraterrestres que vieram pra Terra pra usar os seres humanos como prêmios. Me acabo de rir com os olhares completamente maníacos e me vendo por inteira pra elas quando a música parece perder conexão consigo mesma e os instrumentais se tornam diabólicos. Que bobagem maravilhosa.
01. aespa – Supernova
– Melhor kpop –

E tem dias que o kpop é isso. O que é isso, você me pergunta sem entender. Isso, amores, é Supernova. Grande parte da culpa pelos últimos anos terem sido, em geral, desinteressantes no cenário é que, uma vez descoberta a fórmula pra se fazer sucesso, a mesma fórmula é replicada exponencialmente entre os grupos, como um vírus. As tendências são formadas assim e o pop é um aglomerado de tendências que, uma hora ou outra, cansam, até alguém quebrar o molde de novo. O aespa, já cogitado como o grande fracasso da SM, essa empresa tão grande e respeitada dentro da indústria coreana (pff), foi o responsável por mudar o jogo dessa vez, mas elas não fizeram só isso. O que faz de Supernova um número irresistível são os pequenos detalhes que se juntam e transformam essa uma música a ser lembrada por alguns bons anos. Primeiro que ela reúne dois grandes nomes do time de compositores da SM, Dem Jointz e Kenzie. Ninguém naquele lugar canetaria uma frase tão espetacular quanto bring the light of a dying star watch this universe I’ve brought out pra explicar que a presença do quarteto é tão poderosa quanto a explosão de um astro. É tipo assim, eu sou tão quente quanto uma estrela que acabou de morrer. Sério, sabe quantos graus essa bola de energia guarda dentro de si? Pois é. Tudo isso por cima de um jogo de sintetizadores que passam esse senso de urgência, como se o mundo realmente estivesse prestes a acabar. Até nos seus momentos mais baixos a faixa brilha, como se fosse uma pausa pra respirar no meio de tanto caos, como se uma estrela cintilasse mais fraco no céu por ter perdido um pouco de energia da explosão. Mas uma estrela demora bilhões de anos pra esfriar, então em instantes Supernova volta a ser furiosa. Elas cagando mole na boca da Naevis virando IA lá pro final? Subversivo. E quando a gente acha que o aespa, armado até o pescoço, já tinha mostrado todos os seus truques, toma! Um sample do Afrika Bambaataa. Tá de brincadeira, porra. O universo foi completamente destruído e os pedaços se juntaram pra formar um novo Big Bang. Renascemos ao som do aespa na Terra 2. Imbatível. Isso, amores, é Supernova.

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Eu amei tanto o que você falou de cosmic Rafa que eu engoliria até a musiquinha do twice em #1, mas o cômico mesmo é que se não fosse a playlist eu não ia me lembrar que o twice fez comeback ano passado.
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Eu devia comentar sobre esse top, mas minhas palavras todas escaparam ao chegar no final do texto. Você escreve TÃO bem, Rafa. Sei que eu já disse isso em algum outro post, mas é sempre bom lembrar.
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