Caraca, o tempo é maluco mesmo, né? Enquanto eu assistia Kiss Later no escuro do meu quarto de madrugada em 2017, jamais poderia imaginar que aquilo faria parte da gênese de um dos grupos mais infames da história do pop sul-coreano. E não só isso: que esse mesmo projeto viraria ruína por má administração e trabalho análogo à escravidão, provocando a revolta de uma das integrantes e levantando um enorme questionamento acerca de pagamento justo de salários e exploração de mão de obra. Não, não to falando de um excerto de um livro marxista ou algo assim. Estamos falando do sétimo aniversário do LOONA, esse grupo tão apocalíptico e contraditório que habitou o kpop e serviu as melhores e piores coisas durante um punhadinho de anos.

Essa semana, a semente que brotou o LOONA completou sete anos de história, que é o tempo que NORMALMENTE um girlgroup dura. E pra não simplesmente lembrar como a Heejin abalou as estruturas no final de 2016 criando o mundo, as cores e a pontada cinematográfica que todo material de kpop se sentiria obrigado a adotar dali pra frente, aproveitei a oportunidade pra redigir aquele que deve ser o post essencial em qualquer blog fundo de quintal que se preze, mas que até hoje eu não tinha encontrado a desculpa perfeita pra desovar: comentar e ranquear os solos das doze integrantes, que deveriam sair mês a mês, mas acabou completando quase dois fucking anos, servindo parcerias e units entre as integrantes como forma de conectar o universo cada vez mais complexo do grupo.
Piadas à parte, acho um projeto lindo, ambicioso, algo que só poderia sair da mente de alguém completamente apaixonado por contar histórias. Pra fazer esse post e elencar minhas preferências, revi cada um deles em ordem e, nossa… Que jornada!
Ah, nem de longe eu sou a primeira na blogosfera a comentar os solos do LOONA, até porque foi o evento canônico na vida de todo mundo que consumia kpop entre 2016 e 2018 e muita coisa já foi dita sobre essas doze músicas. Então vou deixar links das listas do Pop Asiático.jpg, Miojo Pop e Gosto Meu. Provavelmente o Bruno Asian Mixtape Eterno Em Nossos Corações deve ter feito uma também, mas ele morreu, Clau.

12. Hyunjin – Around You
A unanimidade em eleger isso como a coisa mais estéril que o LOONA enquanto projeto lançou chega a dar pena. Parando pra pensar nas teorias que foram construídas ao longo do tempo, é quase impossível encaixar Around You em algum lugar, é como se essa fosse uma música outsider. Acho que na época em que puseram a Hyunjin num estúdio, não imaginavam a proporção que os rumos do tal loonaverse tomaria, daquilo de escapar do papel e crescer numa complexidade sem tamanho, e aí a coitada saiu pelas ruas com uma cabeça de gato totalmente à toa. Não tem nada que me conecte ao restante do projeto ou com a própria Hyunjin aqui. Toda vez que eu ouço, é como se eu comesse uma hóstia.
11. Yeojin – Kiss Later
Foi com Kiss Later que eu fui engolida dentro desse buraco negro que é o universo do LOONA, o que parece um pouco estranho botando nos termos de hoje, depois de todos os outros solos legais que vieram. Não é uma música que chamaria minha atenção a ponto de me deixar obcecada com absolutamente tudo que envolvesse esse projeto; na verdade, o fato dela morrer aqui diz muito sobre a minha percepção atual. Eu acho Kiss Later divertida e, muito além disso, gosto da interpretação que a Yeojin deu pra ela. Tudo tá no ponto aqui: uma garota de 14 anos cantando sobre ser muito nova pra beijar na boca, enquanto tudo que rola em torno dela beira o absurdo das fábulas infantis. É tosco, mas conta uma história de puberdade adorável.
10. Choerry – Love Cherry Motion
É, sabemos que Love Cherry Motion é uma daquelas músicas que retratam a perda da “inocência” de forma efetiva e quase literal. Ver a Choerry brincando com as amigas por cima de um instrumental cintilante até botar a “cereja” na boca e descer até o chão no refrão todo pautado em breaks e sussurros dizendo pra gente “imaginar” é ótimo. Quando me dei conta da putaria nisso aqui eu me matei de rir porque tem vezes que os censores coreanos afloram o lado mais criativo da galera de lá pra contar histórias sapecas, algo meio Bloom da Gain com todo aquele pano de fundo sobre o primeiro orgasmo feminino. Meu problema com Love Cherry Motion é que eu enjoei na mesma velocidade que amei. O pancadão do refrão já não me pega mais como antes, e essa perda da inocência foi retratada em outros dois solos do LOONA de um jeito muito mais “sentido” pra mim.
09. Heejin – ViViD
O pontapé inicial foi dado aqui, sete anos atrás, com a Heejin parindo todo o espectro de cores e o mundo em formato de fita de Möbius que formaria o LOONA. Ainda que seja o projeto no seu momento mais cru e desorganizado, ViViD foi uma sacada interessante. Visualmente, é como se atirassem uma porção de referências que só seriam refinadas e/ou explicadas mais pra frente, como o fato da Heejin realmente representar a ideia de Deus nesse universo, onde ela abriu os olhos e fez-se a luz como se o Big Bang fosse uma garota de 15 anos, tanto que a logo clássica do grupo só aparece lá pro final; antes dela, não existia o mundo, quem dirá o LOONA. Eu vivo numa relação de amor e ódio com ViViD. Esse números de jazz costumam ser instáveis comigo, então coloquei essa música numa posição que não afete o resto.
08. Gowon – One & Only
Confesso que eu sempre fico confusa quando vejo One & Only ranqueada lá embaixo nessas listas de solos do LOONA. Tá, ouvir o tom anasalado da Gowon pode ser um pouco frustrante depois de quase dois anos revelando meninas e atribuindo uma série de traços de personalidade pra cada uma delas, mas essa fase final do projeto sempre me arrancou uma ou outra lágrima, por estar acabando ou por ter o roteiro mais curioso de todos. Na verdade, a dinâmica entre as quatro últimas garotas sempre foi minha preferida e fiquei arrasada quando não deram um repack pro yyxy. Enfim, como MV, One & Only é um dos meus favoritos, com todos os recursos de ser uma lagartinha, morar num casulo e renascer como uma borboleta, o jogo de luz e sombra, uma referência solta a um teatro de sombras enquanto a Gowon não aceitava seu destino… Encantador.
07. Jinsoul – Singing in the Rain
Sempre achei que a Jinsoul fosse a melhor vocalista do LOONA. To nem aí pra técnica e nem nada do tipo, mas a voz dela, profunda e até meio rouca, me transporta pra lugares inimagináveis, e isso se intensifica com Singing in the Rain, onde o vocal toma corpo até parecer propositalmente modificado pra se fundir aos sintetizadores. Aliás, gosto demais da complexidade do instrumental porque ele transita entre compassos rápidos feito um corte de lâmina e uma sensualidade gigantesca que antecipa o refrão, juntando o melhor desses dois cenários. Apesar de ser uma daquelas músicas de época, acho Singing in the Rain muito inovadora e diferente do que se fazia na época no kpop. Ela até soa meio “ocidental”, como se tivesse sido produzida em qualquer cafofo duvidoso da cena underground europeia.
06. Chuu – Heart Attack
É muito curioso ver como Heart Attack não perdeu seu carisma mesmo depois de quase sete anos de lançamento. Muito disso a gente precisa atribuir a Chuu, que abraçou com toda a força o plot exagerado (porém muito relacionável) do MV. É como se toda aquela montagem jazzística de ViViD ganhasse um novo significado aqui, deixando rastros de contradições pelo caminho. A virada do instrumental pra transformar tudo isso num grande musical de natal sempre me pega desprevenida, como uma versão sáfica e divertida de A Pequena Vendedora de Fósforos. Os cenários falsos, as cores artificiais da fotografia, a piada pronta da Chuu se esforçando ao máximo pra Yves enxergar ela (como uma fiel seguidora, como a história mostra mais pra frente) e tendo um gay panic toda vez que é notada, é quase impossível não comprar essa narrativa.
05. Vivi – Everyday I Love You
Esses solos do LOONA sempre foram muito bons quando mergulhavam em conceitos definidos. Geralmente, quando os grupos entregam um número mais retrô, eles acabam vindo numa roupagem mais pop, mais moderna e digestiva, e não tem nada de errado com isso. Só que o solo da Vivi (e outra que vem daqui a pouco) diz muito mais sobre os limites artísticos do kpop. Se Everyday I Love You voltasse no tempo de verdade e fosse lançada em 1998 pelo FinKL ou pelo SES, ninguém notaria o paradoxo (a não ser pela definição da câmera, mas isso é fácil de camuflar). Todos os maneirismo de um kpop da primeira geração estão aqui: o instrumental mágico, a luz estourada, a proporção 4:3, a inserção de hip hop e todos os elementos de composição de cenário que estão todos nos seus devidos lugares, com razão de existir. Isso aqui fica cada vez mais nostálgico conforme os anos passam, é como uma máquina que puxa a gente pra trás e nos força a viver memórias.
04. Haseul – Let Me In
É importante dizer que, se essa lista tivesse sido feita há uns quatro, cinco anos, Let Me In estaria bem lá no começo, talvez em décimo. Ainda bem que eu só tenho blog agora. Inegavelmente, Let Me In é o momento mais artístico do projeto de solos do LOONA, e também o menos pop. A música é toda montada em orquestras e elementos teatrais que fazem com que ela soe grandiosa assim mesmo, como se contasse uma história por camadas (ou atos, como os musicais fazem), uma coisa meio IU em Lost Child. Só que a interpretação da Haseul é um pouco mais fria e distante, e aos poucos toma forma quando ela e seu animal espiritual vão se aproximando um do outro. Let Me In, cujo título coreano é “Garoto, Garota”, também aborda o tempo todo essa linha frágil que todos nós temos em relação a nossa identidade. Sempre achei difícil comentar músicas assim. É mais uma questão de sentimento mesmo.
03. Olivia Hye – Egoist
Comentei mais pra cima que o LOONA tem outros dois momentos que tratam a perda da inocência de uma forma que me conquistou mais do que a Choerry rebolando no break de piranha. Uma delas é a Olivia Hye em Egoist, uma das únicas faixas da história que me evoca sentimentos ~estranhos~ sem nenhum apelo visual, do nível de ficar emocionada e dar uma choradinha. Eu genuinamente gosto do pop introspectivo que deram pra ela, e a combinação da faixa com os vocais soturnos que, vez ou outra, se misturam ao instrumental e soam mais como um uivo faz com que essa seja uma das músicas do projeto que mais me acompanharam desde o lançamento. A saga de loba solitária que não tem ninguém e, por isso, precisa aprender a se amar tem um preço, que é justamente a perda desse filtro cor de rosa que a inocência coloca na frente dos nossos olhos. Se não fosse o pós-refrão esticado que deixa a música um pouco chata e barulhenta, poderia tomar o lugar da próxima.
02. Kim Lip – Eclipse
Eclipse não só foi o “grande” estouro do LOONA na sua fase pré-debut, com também foi um despertar coletivo da maior porção da fanbase do grupo: gays! Não que as músicas anteriores não tivessem abordado uma faceta mais adulta (a própria Let Me In aí em cima e Sonatine, do LOONA ⅓, já tinham perambulado por esses lados), mas foi com a Kim Lip que o projeto abocanhou a atenção necessária pra tentar acontecer, afinal nada como uma loira dançando a midtempo mais sensual que uma asiática poderia oferecer. Eu gosto de Eclipse porque eu acho que ela é democrática por conta da identidade pop pesada e apelativa por cima dela, ao mesmo tempo que guarda essas características únicas que o LOONA tinha na época, de um enredo misterioso que vai se desenrolando aos poucos. E é importante dizer que, depois de Eclipse, muitas outras músicas do kpop acabaram seguindo o mesmo caminho por um tempo. Ela só não é tão icônica porque outra gostosa roubou meu coração meses depois.
01. Yves – New
Com a jornada do ODD EYE CIRCLE completa, eu me perguntava como que o LOONA conseguiria suprir as expectativas dali pra frente. Tinha toda a questão da lore, com todas as garotas vivendo numa linha do tempo que se assemelhava a uma fita de Möbius que, em determinado ponto (segundo a matemática), faz uma volta de 180 no seu próprio eixo, invertendo a ordem das coisas. Pra mim, foi aqui que o tal do loonaverso ficou interessante de verdade, e é uma coisa tão fora do comum que foi a música que inaugurou na Coreia do Sul um tal de gênero chamado soultronica, que até hoje eu não entendi direito o que é. Só sei que fui elevada a patamares desconhecidos quando ouvi New pela primeira vez. Ela carrega uma melancolia tão grande, que entra em conflito com a euforia de mesmo tamanho, principalmente a dobradinha da ponte com o refrão final. Acho que nunca ouvi uma música tão contraditória na minha vida, eu sinto vontade de explodir de alegria ao mesmo tempo que eu quero me afogar no meu próprio choro. Sobre a história, é aqui que temos a outra quebra de inocência. A Yves pega o conto clássico do Jardim do Éden de forma literal e sai comendo maçã pelo MV inteiro, mas na verdade o que ela quer dizer é que adquirir conhecimento pleno sobre si mesma e o mundo ao seu redor é o maior ato de rebeldia que alguém poderia cometer. O LOONA nunca mais conseguiu ser melhor que isso aqui.
Vocês sabiam que agora eu vendo minhas artes? Lá na Colab55 tem algumas opções de produtos com estampas que eu fiz e você pode comprar pra ajudar essa pobre coitada que escreve o blog.
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Loona teve um predebut incrível, até o pior solo (Kiss Later) não é ruim como muita coisa por ai, meu top1 é Eclipse, não esperava nada e recebi tudo, a Kim beiço moldou minha personalidade, Let Me In, uma delícia.
O grupo só deu sinais de alguma coisa parecida com Butterfly, elas deviam ter debutado com essa música, depois veio a chuva de bombas, essas coitadas só tiveram 2 momentos bons como grupo (o outro é aquela “Close to me you are (o resto eu esqueci))
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Eclipse ficou muito baixo.
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O yyxy não ter recebido um repackage (apesar de todo o potencial que essa unit oferecia) foi o primeiro sinal de que a agência delas não era tão organizada como a fase pré-debut fazia parecer… de “Butterfly” pra frente, foi só ladeira abaixo (com exceção de “Flip That”, que eu acho realmente muito boa e cuja pegada “aegyo mística” eu considero que é o tipo de música que elas deveriam ter recebido no debut como OT12 em vez do aegyo reciclado de “Hi High”).
Mas elas vão deixar saudades; daqui pra frente, só teremos o Loossemble e o ARTMS (além dos solos que a Chuu e a HeeJin vão lançar este mês). Com sorte, talvez o Jaden Jeong chegue num acordo com a agência da Chuu e com a do Loossemble pra reunir as OT12 pra algum projeto especial daqui a alguns anos (estilo o single mais recente do SNSD, que elas lançaram pra fingir que o grupo continua junto).
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