[SabadOFF] Eu e a música, a música e eu

AVISO DE GATILHO: Esse texto contém trechos sensíveis que podem despertar traumas e gatilhos no leitor. Prossiga com cautela.

Diferente do mês passado, que eu dediquei vários dias meus pesquisando sobre o assunto que eu queria falar, esse SabadOFF surgiu no improviso. Primeiro porque, como eu sempre venho comentando por aqui, trabalhar três vezes de forma presencial tem sugado a pouca energia que eu tenho e aí não sobra nada pra planejar pautas ou fazer um rascunhos desses posts mais elaborados. E segundo: julho é o mês do meu aniversário e eu não queria falar de aniversário sendo que eu já tenho um quadro fixo pra isso dentro do nicho do pop asiático. Então, depois de tantos dias em sofrimento por não saber o que fazer, eu decidi escrever um texto do fundo do meu coração sobre a minha relação com a música num geral. E acho que é bom avisar que esse texto, além de ser um pouco pesado, é também um relato extremamente íntimo onde eu revivi muitas memórias pessoais. 

Música é uma parte importante não só da minha vida, como da minha sobrevivência. É nela que eu me isolo de todo o mal do mundo e é com ela que eu imagino cada pedaço do meu dia se desenrolando num grande videoclipe onde eu sou a protagonista. É a música que me acorda de manhã pra enfrentar a realidade e é a música que me prepara pra entrar em mais uma noite de sono (mesmo que, na maioria das vezes, não seja uma noite de sono tão agradável assim). Se tornou peça fundamental pra formação da minha personalidade e senso crítico conforme eu fui crescendo, me acompanhando, nas suas diversas formas, enquanto eu deixava de ser menina pra virar mulher. A música me apresentou o amor que eu jamais poderia imaginar receber, dentro de uma comunidade do Orkut. Sem música, talvez eu não estivesse aqui.

Aprendi a gostar de música vendo meu pai tocar violão. Desde que eu entendi que eu era um ser humano, todas as noites meu pai ia pro quarto e tocava o mesmo set, que incluía Beatles e Pink Floyd, duas das bandas favoritas dele. Com onze anos, eu já devia saber o nome de cada beatle e reconhecia os acordes de Shine On You Crazy Diamond, apesar de sempre estar em contato com o LimeWire na mesma época e ouvir incansavelmente o Loose, da Nelly Furtado, enquanto fingia ser sociável no MSN. Em 2006, ser fã da Nelly Furtado era extremamente legal e descolado. Tocava nas festinhas do pessoal popular do colégio que, a essa altura, já sabiam beijar de língua, enquanto eu observava no cantinho com um copo de guaraná na mão por ser muito, ahm, feia. 

Até hoje, ouvir a Nelly Furtado cantando Maneater ou a Fergie gemer em My Humps me dá um nó no estômago. Era uma época onde os meninos cochichavam entre eles ou faziam som de vômito quando me viam. Aos doze, eu sabia que nunca seria desejada por ninguém, que eu era uma garota espinhenta de cabelos “rebeldes” que jamais se igualaria àquela menina dos cabelos lisos e rosto perfeitamente oval que era o sonho de consumo do cara que eu gostava. Ele tinha nojo de mim, mas de vez em quando me pedia conselhos sabendo que eu cederia só pela chance de conversar com ele. Quando eu percebi que não conquistaria ele de jeito nenhum, assim como tentar ser popular não me tiraria do último lugar da lista das garotas mais bonitas da sala, eu me revoltei. 

Com treze anos, entendi que o melhor era nunca falar dos meus sentimentos e me isolar de todas as formas possíveis. Já sabia mexer bem no computador, então passava horas tentando chamar atenção de meninos por ser diferente das demais (e numa dessas eu consegui a pessoa com quem eu to até hoje, mas isso é história pra outro post, talvez). O ano era 2008 e eu não estava nem aí pro que era moda; eu gostava de NOFX e Green Day e queria deixar isso bem claro pra quem quisesse me conhecer melhor (pela internet, é claro). De repente, eu encontrei um cara que me entendia e gostava de mim além da aparência, além de elogiar meu gosto musical. Ganhei um CD importado do NOFX graças a ele, e o fato dele ser nove anos mais velho não me parecia um problema. Quer dizer, é óbvio que ele me achava linda e gostosa, e ser novinha era só um bônus, afinal a idade não importava. Tinha um homem de 22 anos querendo me comer, mas tudo bem, ele gostava da minha “personalidade”.

Eu demorei ANOS pra entender que eu fui vítima de abuso e pedofilia, mas na real só queria ser aceita e admirada por alguém através do meu gosto musical. Ouvir as bandas que eu ouvia era motivo de orgulho pra mim porque foi por conta delas que eu consegui me entender como mulher desejada, mesmo sendo uma pirralha. Ser “diferente” foi a minha ruína por muito tempo porque eu não era capaz de me sentir um ser humano válido se não fosse através de muita sexualização e conversas altamente tóxicas, até criminosas, pra alguém da minha idade. E, ao longo dos anos, eu aperfeiçoava ainda mais essa minha biblioteca musical, não só como objeto de respeito por parte dos caras, mas porque ouvir música era, cada dia mais, minha atividade preferida. 

Aos 14, eu pedi um livro pros meus pais, chamado 1001 Discos Para Ouvir Antes De Morrer. Foi com ele, junto da MTV como meu canal preferido pra assistir depois da aula, que eu conheci as bases musicais e comecei a ficar cada vez mais fechada, nojenta e criteriosa em relação ao meu gosto. Na escola, eu era um ótimo exemplo pra falar sobre música; meu peito enchia quando alguém dizia que eu era referência ou entendia sobre determinada banda sendo que, lá no fundo, a minha felicidade estava no fato de alguém reconhecer a minha existência. Mesmo que a música tenha sido o caminho pra isso. Lembro da classe toda ter feito um seminário sobre o Reino Unido e eu ter me vestido tal qual um beatle na minha singela banca sobre a cena britânica, ou quando a gente tinha um trabalho sobre a Noruega e eu fiz questão de ficar com a parte musical só pra despejar todo meu conhecimento sobre Röyksopp e a-ha (aliás, Hunting High And Low é uma das canções de amor mais poderosas que existem). 

Nessa mesma época, fui sorteada pra ir no show do Franz Ferdinand, uma das minhas bandas favoritas da vida, em parceria com a Smirnoff. Como eu era de menor e o lugar era uma boate, tive que levar minha prima (que morava comigo na época) pra servir de responsável, mas senti que eu tinha muito poder nas mãos quando contava que tinha curtido um show praticamente sozinha até de madrugada sendo que, no outro dia, eu tinha aula cedinho. De repente, eu era uma pessoa descolada e até um pouco “fora da lei”. Dado o contexto, eu tinha carta branca pra inventar o que eu quisesse, que eu tomei um porre de vodka e conheci um dos membros da banda, mas sei lá, meio que me senti idiota por parecer o que eu não era de fato. Querendo ou não, eu ainda era uma criança perdida num lugar pra adultos. Pela comunidade do Franz Ferdinand no Orkut, conheci uma jornalista de uns 24 anos e ela, por algum motivo, fez questão de falar pra mim que o guitarrista tinha dado em cima dela. Foi um sentimento estranho.

Foi com um Playstation 2 no ano seguinte que meus horizontes foram expandidos. Lá eu conheci o Guitar Hero e fiquei muito boa nele, a ponto de decorar os momentos exatos onde eu poderia dar o especial e receber mais pontos por isso, mas com certeza o jogo cumpriu um papel muito importante no meu gosto musical. Perdi o preconceito com The Strokes quando os primeiros acordes de Reptilia começavam a tocar; berrava When We Were Young, do The Killers, junto com a televisão; conheci Blue Öyster Club e Living Colour, e falava disso pros meus tios roquistas com certo orgulho porque, aparentemente, eu era a única da família que tinha dado certo por conta disso; a odisseia virtuosa que era tocar Knights of Cydonia, do Muse, e anos depois se tornou uma banda muito querida pra mim. Enfim, eu praticamente tinha me tornado “profissional” (entre muitas aspas) em Guitar Hero e, além disso, amo muito esse pedaço da minha história que, provavelmente, eu nem dei tanto valor assim na época. Saber jogar Guitar Hero fazia com que eu me sentisse um ser fora da curva e era uma ótima característica pra se começar uma conversa, “oi, sabia que eu sou quase-semi-profissional de Guitar Hero?”.

Eu fiquei com uma menina numa dessas, mas em certo ponto, a gente nem lembrava mais como tinha se conhecido. A música fez com que eu descobrisse minha sexualidade, mas impiedosamente me tirou do armário pros meus pais. Do dia pra noite, por ter beijado alguém do mesmo sexo, eu era uma decepção pra todo mundo. Tive meu celular tomado, não podia usar o computador da casa, até o Playstation e meus CDs saíram do quarto e, pela primeira vez, meu mundo ficou em silêncio. Nesses dias de castigo por amar demais, eu percebi o quanto a música era valiosa pra mim porque ela me distraía dos meus pensamentos. Nunca desejei fones de ouvido acima do limite permitido ecoando algo na minha cabeça a ponto de sentir meu cérebro tremer. 

Em certo ponto, eu fiquei amarga. Durona demais. Da mesma forma que aos 13 anos, mas agora um pouco mais “madura”, eu não aceitava menos que um cara me tratando feito lixo pra me sentir bem. E homens são engraçados, né? Eles te falam as coisas mais tóxicas, mas logo esquecem porque “se eu não lembro, não aconteceu”. Meu último ano do ensino médio é um borrão, mas é o que mais me dói ao mesmo tempo. Tinham dias que eu não conseguia dormir porque não sabia se meu namoro duraria até o dia seguinte. Me envolvi com três pessoas diferentes ao longo do ano e, de alguma forma, elas me decepcionaram. Eu sentia que, aos 17, eu tinha vivido demais. As músicas que embalaram essa época eram todos aquelas que vinham num DVD muito simpático escrito “Flashback 80s” e, por ter sido um ano meio too much, são músicas que me causam um gatilho, um enjoo ou uma sensação ruim: Waiting For A Girl Like You, do Foreigner; Is This Love, do Whitesnake; Listen To Your Heart, do Roxette; todas muito bregas, mas têm o mesmo gosto salgado de uma madrugada chorosa. 

Enquanto eu assistia 500 Dias Com Ela no meu quarto, meu namorado terminou comigo. Por mensagem, já que a gente morava longe um do outro. Aquela era a terceira vez que a gente tentava fazer acontecer e, por alguns meses, a vida me deu uma falsa sensação de segurança, de que daria certo, mas fui atingida em cheio. Lembro de deitar em posição fetal na minha cama ouvindo o Matt Bellamy cantar que só queria segurar a pessoa pra sempre nos braços dele e sentia um vento gelado correr pelos meus próprios braços porque, de novo, eu tinha perdido a pessoa que eu amava sem nem um porquê. Por muito tempo, eu postei a fatídica frase de Starlight pelas redes sociais pra ver se ele se tocava do mal que ele tava me fazendo, só pra anos depois nós irmos num show do Muse já muito bem estabelecidos e com nossos passados superados. E berrando our hopes and expectations, black holes and revelations juntos. 

Lembram quando eu cortei relações com o pop lá no comecinho da adolescência? Night Time My Time, da Sky Ferreira, foi o responsável por preencher um vazio de estar longe de casa cursando uma faculdade que eu não queria. Foi lá que eu descobri o álcool e como ele pode levar a gente pra lugares assustadores quando quer. Eu saía pedalando pelas ruas do interior de São Paulo de madrugada pra sentir uma pontinha de vida depois de ter sofrido abuso novamente, tentando expurgar os demônios de dentro de mim num grito angustiante e até meio constrangedor ao som de Nobody Asked Me (If I Was Okay). É até meio complicado expor isso, mesmo com todo o cuidado que eu acho que esse episódio da minha vida merece, porque até hoje não sei se foi um sonho ou não. As lembranças se misturam dentro da minha cabeça e, pras pouquíssimas pessoas que conhecem a história com detalhes, eu fico com essa sensação de estar contando uma mentira. Mas eu lembro, sim, de como essa música foi meu exorcismo real. E ninguém se sente exorcizado sem um motivo. 

Depois de ter voltado pra São Paulo, lembro que a minha vida foi entrando nos eixos. Em 2015, comecei um estágio; meu namoro ia bem e, logo depois, começamos a morar juntos; fiz um monte de amigos pelo caminho, coisa com a qual não era acostumada; escrevi bastante porque sempre foi uma paixão. E, no meio disso tudo, eliminei um monte de preconceitos quando comecei a ouvir kpop e, de quebra, me reconectei com o jpop, que sempre foi um gênero que me acompanhou por diferentes fases da vida. Também me aventurei pela MPB, rock gótico (olá, The Cure), todas as formas de metal e até pelo rock progressivo, ouvindo Shine On You Crazy Diamond sem a interferência do meu pai. Meio que senti minha vida completando um ciclo, sabe? De ter ouvido ele tocar no violão e, muitos anos depois, ouvir por vontade própria. É como se o universo conspirasse por um presente depois da jornada dolorida que eu passei nesse meu processo de crescimento com direito à trilha sonora do Pink Floyd.

Parece clichê, mas a música tem esse poder de transformação, ainda que não seja sempre algo bonito de se ver. Quer dizer, sem quase ninguém saber (por eu ser extremamente fechada), eu passei o diabo pra chegar viva e escrever esse texto. E senti que foi uma decisão importante da minha parte contar como a música me acompanha até os dias de hoje. É um elemento essencial pra mim: sem música, eu simplesmente não funciono direito. E, nossa, como eu amo falar sobre música sem todas aquelas amarras sociais nas quais eu me meti na adolescência. Recomendar algo é natural pra mim porque eu quero que a pessoa saiba que eu pensei nela enquanto eu ouvia, talvez seja até a maior demonstração de carinho que alguém pode receber de mim. Músicas narram histórias, e eu escrevo sobre música, então nada melhor do que vocês saberem como a música me levou ao lugar que eu estou atualmente. E, no auge dos meus 28 anos recém-completados, consigo dizer que a vista vale a pena. 

Vocês sabiam que agora eu vendo minhas artes? Lá na Colab55 tem algumas opções de produtos com estampas que eu fiz e você pode comprar pra ajudar essa pobre coitada que escreve o blog.

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2 comentários sobre “[SabadOFF] Eu e a música, a música e eu

  1. Eu não te conheço Rafa, mas acompanho o AyoGG a um bom tempo, entro sempre que posso pra acompanhar os posts do blog.
    Esse em especial foi tão sincero e honesto… A sua relação com a música é tocante.
    Você parece uma pessoa incrivel de verdade!

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