[SabadOFF] Como o Husker Du transformou um relacionamento homossexual fadado ao fracasso em melancolia pura em Candy Apple Grey

Talvez esse seja o post do SabadOFF que eu mais me empenhei em escrever até então, e também o que mais me deixou ansiosa em publicar porque comecei a produção do texto logo no começo do mês. É um tema que eu não fazia ideia de como conduzir, mas também não poderia deixar de falar algo sobre; eu faço parte da sigla, afinal. Mas não queria cair em clichês sobre o mês do orgulho, e nem citar personalidades icônicas e como elas me ajudaram de alguma forma, isso simplesmente seria invenção da minha parte. Eu queria abordar histórias de gays trambiqueiras e ordinárias, bafafás de bastidores, alguma coisa nessa linha.

Então logo nos primeiros dias de junho, eu relembrei uma banda que eu gosto muito, mas ao mesmo tempo nunca tive muita paciência pra ouvir toda a discografia. Às vezes, o que eu mais quero é ser alienada e me agarrar numa playlist fácil que não me mantenha presa a ouvir álbuns em ordem, só que eu lembrei que a banda em questão tem uma história muito curiosa e até fora dos padrões pra época em que tava na ativa. Se você já leu o título, conhecendo ou não, estou falando do Husker Du. 

Da esquerda pra direita: Greg Norton (baixo), Grant Hart (bateria/vocal) e Bob Mould (guitarra/vocal)

Esse trio estadunidense que fez muito barulho (literalmente, mas no sentido figurado também) teve vida curta, mas uma discografia cheia, muito por pressão da primeira gravadora (eles basicamente soltavam um álbum a cada seis meses, uma esteira de produção em massa que esgotaria qualquer ser humano). Formada em Minnesota no fim dos anos 70 por Bob Mould (guitarra), Greg Norton (baixo) e Grant Hart (bateria), o Husker Du carrega fatos curiosos consigo nessa aventura delirante de quase uma década: uma luta incessante de composições cada vez mais desoladoras entre dois LGBTQIA+ “assumidos” que só queriam que a banda desse certo e acabaram levando todo mundo pra ruína. E um baterista que canta.

Mould (que é gay) e Hart (bissexual) diziam não ter tido nenhum relacionamento além do profissional, mas o álbum que eu escolhi pra resenhar nesse post (e que calha de ser o meu favorito da banda) prova o contrário, de um jeito tão descarado que não teria como disfarçar. Candy Apple Grey, de 1986, foi o primeiro de dois álbuns lançados já numa nova casa, a gigante Warner. Mas o que deveria ser motivo de grandes perspectivas pro Husker Du se tornou um verdadeiro inferno, a ponto dos dois integrantes ao menos se olharem durante as sessões e coletivas. Essa é a história de um pilar essencial do rock alternativo e da comunidade LGBTQIA+ como protagonistas de um barraco melodramático ao longo de dez faixas.

Pra entender como o Husker Du chegou no momento do lançamento de Candy Apple Grey, a gente precisa voltar alguns anos. Naquela altura, a banda existia há oito anos, com quatro álbuns de estúdio, um EP e um álbum ao vivo na conta. Desde o dia em que tocaram Psycho Killer, do Talking Heads, juntos (evento que consolidou o nome do trio como Husker Du por gritarem a icônica frase “qu’est-ce que c’est” em outros idiomas até chegarem numa equivalente dinamarquesa) até os precedentes do fatídico álbum de 1986, esses coitados espremiam toda a criatividade pra cumprirem as demandas do contrato com a SST, gravadora do guitarrista do Black Flag. Ninguém esperava que eles fossem vender tanto: Zen Arcade, o magnum opus do Husker Du de 1984, teve uma tiragem de cópias muito pequena e o resultado foram meses sem o álbum nas prateleiras. A exigência era, majoritariamente, suprir as necessidades dos fãs, que chegavam aos montes, ao passo que Mould e Hart travavam uma batalha interna de composições porque aquilo, de certa forma, definia quem era o líder da banda.

O desgaste dos anos fez com que Candy Apple Grey soasse amargo, mas também desesperado. É o espelho de uma amizade despedaçada, que talvez não tenha se restringido apenas aos limites de uma simples amizade. Recheado de fúria e melancolia, o álbum traz dez faixas que evidenciam a dor em assistir calado a uma relação desmoronar. Grant Hart era enérgico, uma máquina incessante que vivia rugindo, tomando seu devido espaço como um ótimo compositor e um frontman excepcional, apesar do vício em drogas se tornar cada vez mais grave. Era ele quem dava liga ao Husker Du e que contrastava com a figura sempre muito fria e séria do Mould, um guitarrista que, ao longo do tempo, foi ficando cada vez mais introvertido e desligado da realidade. Enquanto que Norton, o baixista bigodudo, saltitava alegre pelo palco tentando fazer seus acordes serem ouvidos em meio a uma guerra estrondosamente silenciosa dos dois vocalistas. 

Pra quem tem um pouco de noção da discografia do Husker Du, a abertura com Crystal parece um pouco fora do lugar. Uma banda tentando se reerguer por cima de um som mais antigo, talvez nostálgico; pode ser que Bob Mould tivesse isso em mente quando escreveu a música porque ela soa extremamente agressiva tal qual uma faixa perdida do Zen Arcade, mas também acredito que, por cima das baboseiras da letra, os gritos cada vez mais guturais de Crystal sejam uma forma que ele encontrou de exorcizar quaisquer demônios que existiam dentro dele. E consegue: apesar de aleatória, Crystal é uma abertura e tanto, a ponto de enganar quem para pra ouvir. Uma pitada de contexto faz com que a faixa seja o prelúdio da soturnidade avassaladora que domina o álbum. 

A grande estrela do Candy Apple Grey vem em seguida. Don’t Want To Know If You Are Lonely caminha perfeitamente entre ser um rock agressivo e um hit radiofônico, poder esse que Grant Hart tinha em várias outras composições. Só que essa tem algo a mais. Ela cutuca uma ferida aberta de um relacionamento nem tão acabado assim, situação essa que é reflexo direto do clima cada vez mais hostil entre Hart e Mould. Do ponto de vista do compositor, é como se o Husker Du fosse um ambiente seguro o bastante pra que Hart pudesse observar Mould de longe, quase uma desculpa perfeita pra ter que “suportar” sua presença. É como espetar o dedo num espinho de propósito e afundar a carne cada vez mais por gostar da dor, sentindo o sangue quente escorrendo na pele. Ainda no mesmo álbum, Hart escreve e canta outra faixa tão amargurada quanto essa. 

A resposta de Mould é com I Don’t Know For Sure, e aqui já conseguimos observar um padrão bastante curioso do álbum: a tracklist é praticamente uma discussão entre os dois integrantes, e quando um pensa que encerrou a conversa, o outro aparece com mais argumentos acalorados. Um descaso e até certa ironia é perceptível aqui, como se Mould não se importasse tanto com o que fosse acontecer dali pra frente. Não sei o que acontece daqui pra frente, pode ser algo bom ou ruim; eu já quis isso e aquilo e não me pergunte porque eu não sei, e eu tenho quase certeza de como essa resposta deve ter enfurecido o Hart porque, de uns meses até ali, a apatia de Bob Mould perante a banda era algo esquisito e, com certeza, irritante. Mas, na real, ele tava tentando parar de beber, enquanto Hart não conseguia viver sem heroína principalmente depois de ter sido incorretamente diagnosticado como soropositivo. Era compreensível não ter certeza de nada.

A segunda tacada angustiante de Hart vem em Sorry Somehow, outra joia do álbum. Assim como Don’t Want To Know…, temos um compositor frustrado em ver todo o projeto de quase uma década afundando sem mais nem menos, mas aqui a raiva é praticamente palpável e ela vai crescendo até ser impossível estar no mesmo espaço. Diante de tanta indiferença, Grant Hart resolve debochar da situação dizendo que tudo isso “até faz” com que ele sinta um pouco de pena, mas de uma forma tão amargurada que fica claro que o elefante branco na sala nunca vai ser superado. É como sair de um término conturbado enquanto ainda se ama a outra pessoa, mas fazer de tudo pra mostrar que está bem, e o ápice de toda a dor dentro do peito de Hart é condensada no último verso, quando ele praticamente berra que daria tudo pra que você deixasse de existir. O que não é exatamente verdade, como o fim do álbum mostra.

Com uma dobradinha de baladas, Bob Mould assume as rédeas do álbum com duas das suas melhores letras. Too Far Down faz jus ao nome por ser explicitamente depressiva e auto-depreciativa. De forma tragicamente engraçada, ela faz uma conexão direta com a faixa anterior, mais uma resposta que comprova os pensamentos de Hart a respeito dele, mas com uma pitada de falta de dignidade de alguém que sente na pele os efeitos da exaustão em se produzir álbuns numa larga escala, quase industrial, combinado ao vício do parceiro de banda que o consome de dentro pra fora a cada dia e toda essa inimizade que foi criada por consequências da vida. Aqui, Mould chama os últimos oito anos de jornada estúpida, mas você não tá nem aí pra como eu me sinto. E dói ouvir os lamentos quase suicidas de um homem sem esperança nenhuma no futuro. 

E Mould se apresenta tão desesperançoso quanto em Hardly Getting Over It, com uma letra um pouco mais metafórica, mas não menos triste. É como se fosse uma viagem às memórias de Mould, refletindo sobre relacionamentos e a finitude da vida, que no final todos estaremos da mesma forma como chegamos ao mundo. É até um pouco incomum conhecer esse lado mais “contido” e filosófico de Bob Mould, dono de uma porção de composições furiosas que se moldam em gritos quase inaudíveis, mas também é bonito enxergar uma ponta de sentimento nele, nos convidando a pensar sobre o que fazer quando nossos pais morrerem, por exemplo. Não é uma música direta ao Grant Hart, mas é um decalque de como Mould estava no momento da produção desse álbum: completamente perdido, frustrado e impotente. 

Já Dead Set Of Destruction e Eiffel Tower High atuam como fillers, mas também cumprem seu papel nessa escalada pelo “poder” motivada puramente por birra entre os dois integrantes. A primeira é composição de Grant Hart e, de forma bem simples, exemplifica bem porque eu gosto tanto da forma que ele faz música. Ela não tem nada demais além de meia dúzia de acordes, mas é extremamente divertida, quase como se fosse aquele momento do álbum onde Hart pegou suas baquetas e resolveu tocar por tocar, esquecendo todo o background no qual o Husker Du estava metido, pelo menos por três minutos. Eiffel Tower High segue na mesma direção, inclusive tem uma estrutura parecida com a anterior, como se fosse a resposta descrente de Mould pra algo do tipo “como assim ele tá se divertindo diante de tanta merda acontecendo?!” e, algum tempo depois, deu de ombros pra própria postura indiferente em prol de relembrarem juntos o dia em que ambos se conheceram numa loja de discos em Minnesota. Os vocais se mesclando no refrão é algo emocionante, de certa forma.

Lembram quando eu disse que o posicionamento teimoso e agressivo de Hart não duraria o álbum inteiro? No Promise Have I Made é uma declaração para Bob Mould. Bom, em termos. Sendo a primeira vez que se comprometeu a escrever uma música mais lenta, acredito que Hart não sabia muito bem como por os sentimentos em palavras e o resultado é algo bem ambíguo, a ponto de não conseguirmos identificar se Hart está chateado com Mould ou com a situação em que ambos chegaram. Quando ele diz se eu pudesse mudar você, bom, não mudaria nada, não dá pra saber se ele não mudaria nada em Mould ou se, mesmo podendo mudá-lo, serviria de alguma coisa. Mas, no fim das contas, acho que No Promise Have I Made tem esse único propósito de ser uma composição aberta a debates. Grant Hart morreu em 2017 e não temos como saber o que ele estava sentindo no momento, mas é uma das suas canetadas mais sinceras. 

O álbum termina agridoce. Bob Mould parece voltar ao início e soa tão agressivo quanto antes em All This I’ve Done To You, mas, aparentemente, a apatia já não é tão presente. Faz sentido se a gente pensar que os dois passaram dez faixas jogando indiretas um pro outro, fazendo com que ambos sentissem coisas nunca antes abordadas: raiva, ciúmes, pena, tristeza, idealizações suicídas, indiferença, nostalgia, amor. Candy Apple Grey é tudo isso batido no liquidificador e, depois de tomarem essa vitamina reforçada de humanidade, All This I’ve Done To You se torna praticamente um dueto, com cada um dos lados jogando na cara todas as coisas pelas quais se abdicaram pra estarem ali, naquele momento. É quase uma síntese do Husker Du até então, com altas doses de amargura e revolta a respeito de um relacionamento que nunca foi definido por nenhuma das partes envolvidas, mas que era importante. 

Candy Apple Grey poderia ter sido o fim do Husker Du, mas não foi. Com Hart tentando substituir um vício por outro, Norton virando sócio de um restaurante e Mould insatisfeito com os rumos tomados, eles ainda lançaram Warehouse: Songs and Stories pela Warner e, de alguma forma, o álbum duplo parece ambicioso em dar andamento a esse novo caminho que eles mesmos iniciaram na música. Os bastidores não são tão amigáveis: Mould disse em claras palavras que Hart nunca escrevia mais da metade dos álbuns, e em vinte músicas do Warehouse, Mould ficou com a maioria (onze). Mas existem momentos ali onde tudo parecia entrar nos trilhos, com o destaque merecido para Ice Cold Ice, um quase-dueto com harmonias interessantíssimas entre os dois parceiros. Não era nem imaginado que, meses depois, a banda terminaria aos berros na casa dos pais de Hart. Somente nos anos mais recentes que ambos voltariam a conversar, mas a vida pode ser um pouco injusta. Grant Hart foi vencido pelo câncer no fígado e hepatite C sem uma reunião propriamente dita do Husker Du, e talvez com algumas feridas ainda abertas de uma rivalidade que ultrapassou os limites da música e se tornou extremamente passional; dois LGBTQIA+ tentando encontrar espaço no coração um do outro.  

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