Os meus dez MVs favoritos de todos os tempos

Esses dias rolou essa discussão no Twitter, promovida pelo Lunei:

Como todos fomos totalmente influenciados pelo post do Dougie do Pop Asiático.jpg, decidi listar também meus dez MVs favoritos de todos os tempos, dando início à nova tag da blogosfera fundo de quintal. Vai ser uma tarefa difícil, mas se tem uma coisa que eu gosto muito de acompanhar, seja na música coreana, seja na música japonesa, são os clipes. Muitos deles ultrapassam o senso comum e entregam trabalhos icônicos que podem conversar com a música ou só trazem uma estética a mais mesmo. 

Depois que eu comecei a cursar design gráfico, eu tenho buscado diversas referências visuais dentro da música asiática, como se eu quisesse entender de fato o que o diretor, roteirista e produtor pensaram enquanto formalizavam a ideia por trás de tudo (e conseguir pensar melhor no meu TCC desde já, por que não?). Sendo assim, um MV consegue me agradar quando conta sua história de forma clara, seja ela qual for, se tem a ver com a letra ou não. 

10. IZ*ONE – Fiesta

Goste ou não, o IZ*ONE sempre teve um apelo audiovisual muito grande e consistente desde o debut do grupo em 2018, muitas vezes mais visual que tudo. Isso é errado? Não, porque elas surgiram num momento em que o LOONA (outro grupo que eu aclamava por conta dos MVs) saía um pouco de cena por ter finalizado seu pré-debut riquíssimo e que rendeu muitos screenshots pela internet. O IZ*ONE me conquistou, primeiramente, pela parte gráfica pra depois me convidar a ouvir suas músicas e, no final, o kpop acaba sendo muito disso: visual. Fiesta sabe brincar muito bem com jogos de chiaroscuro e efeitos de câmera que passam essa ideia de apresentação de mágica, dando um show de truques na nossa frente. Uma curiosidade é que a Digipedi dirigiu a versão original de Fiesta que nunca viu a luz do dia por conta das polêmicas com o grupo na época, mas acho que a Rigend Film fez um trabalho extremamente competente aqui.

09. DAOKO x MIYAVI – Senkyaku Banrai

Dizem que Senkyaku Banrai é melhor que o filme do qual a música faz parte; não faço ideia se isso é verdade porque nunca assisti, mas ter DAOKO e MIYAVI dividindo espaço na mesma tela traz uma energia chaotic good muito boa. Essa concepção de festim diabólico, cenário estourando no led vermelho, chuva, MIYAVI encarando a DAOKO enquanto ela come sei lá o que… Seja lá quem foi a pessoa que concebeu e executou essa ideia toda acertou em cheio. Senkyaku Banrai serve basicamente dois cenários que intercalam o MIYAVI tocando guitarra enlouquecidamente com a DAOKO e o banquete ensopado, além das trocas de olhares entre os dois que, lendo o roteiro do filme, fazem mais sentido se forem lidas como uma relação de subordinação e afronta. E o resultado final é extremamente hipnotizante.

08. Utada Hikaru – You Make Me Want To Be A Man

Apesar de ter mais de 15 anos, You Make Me Want To Be A Man, dirigido pelo Koji Morimoto (diretor de Animatrix) trabalhou questões de gênero muito antes de se tornar uma pauta recorrente na sociedade. Acho interessante como a Utada Hikaru trouxe esse conceito cyberpunk distópico pra se transformar em outro ser, assim como o MV mostra ela perdendo sua humanidade aos poucos, mesmo que ela estude as emoções humanas e tente compreendê-las da melhor forma. A interpretação dela aqui é impecável. Esse rosto mais inexpressivo foi fundamental pra que a ideia toda funcionasse e sua forma de ciborgue no final, sozinha, demonstra como a gente se desconstrói o tempo todo em prol de algo. A própria Utada já disse que a música surgiu da falta de entendimento dela com o marido da época e como seria mais fácil se ela fosse um homem pra conseguir conversar com ele. O fato de uma situação tão corriqueira ter se tornado isso aqui é brilhante. 

07. T-ARA – Day by Day

Ainda trazendo esse lado mais sci-fi, o T-ARA lançou o MV de Day by Day em uma época que o kpop ainda se permitia a ousar dessa forma, com essas narrativas extremamente complexas. Esse deve ser o MV mais trabalhado do T-ARA e, provavelmente, da música coreana em geral. Day by Day foi influenciado pelo roteiro de Mad Max e, segundo o Wikipédia, a pós-produção atrasou a estreia em 13h. As atuações são bem convincentes (apesar de uma ou outra cena de luta ser um pouco constrangedora) e o MV é super bem feito, levando em consideração que ele tem quase nove anos de existência. Mesmo com seus incríveis 15 minutos, não acho que seja cansativo assistir; na verdade, eu encaro como um curta metragem que, se melhor desenvolvido, tem potencial pra virar um filme. Pena que o escândalo do falso bullying prejudicou a repercussão desse lançamento e dos próximos, mas a existência de Day by Day marca uma das épocas mais criativas do kpop. 

06. Red Velvet – Automatic 

Teve uma época em que o Red Velvet era tido como as rainhas absolutas do R&B (ou isso só aconteceu na minha cabeça mesmo), e Automatic é um ótimo exemplo. Mas o MV sóbrio e maduro que acompanha a música acaba sendo bem mais memorável pra mim, um produto único na videografia do Red Velvet. Dirigido pelo Shin Heewon, que tem um estilo bem cinematográfico e assina muita coisa conceitual principalmente pra SM, Automatic é um MV filmado em um take (não necessariamente uma única tomada, mas com uma edição que faz com que pareça que foi executado dessa forma) que insere o grupo em um contexto social dos anos 60, que são donas de casa que abandonaram seus sonhos pra viver por seus maridos ausentes. É possível perceber essa busca incessante por se sentir viva de novo quando o MV trata de contrastar as realidades de cada uma e que, no final, elas ainda precisam servir o jantar. O Red Velvet ainda tinha um ano aqui (ou menos) e eu ainda fico impressionada como o conceito serviu nelas como uma luva.

05. majiko – Emily to 15 no Yakusoku

Eu não conheço muita coisa da majiko, mas ter topado com esse MV um dia meio que mudou minha visão sobre muita coisa. Emily to 15 no Yakusoku tem basicamente uma única cena, que é a majiko numa cabine telefônica assumindo o papel de uma mãe que vai “sair pra uma viagem muito longa” e deixa instruções pra que a filha continue vivendo. Não é necessário dizer muita coisa sobre a mensagem que esse conceito quer passar, mas a simplicidade desse MV funciona somente por conta da música e pela interpretação maravilhosa da majiko, imprimindo uma sensibilidade que faz com que o assunto abordado não seja tão pesado no fim das contas. A direção do Kyotaro Hayashi também adiciona muito pelos seus outros trabalhos possuírem as mesmas características simplistas em contar uma história, apostando em cores e luzes que expressam determinados sentimentos. A cena final, com a cabine telefônica e as flores em volta que se assemelham a um túmulo deixa qualquer um de coração partido. 

04. EXID – Ah Yeah

Depois de ter o merecido spotlight com um MV que falava de safadeza, o EXID voltou com um MV que também falava de safadeza, mas por parte dos homens. Ah Yeah explorou todos os âmbitos possíveis de uma Coreia do Sul hipócrita com todos os seus problemas de sexualização de mulheres, assédio, machismo, consumo de pornografia e censuras descabidas aos girlgroups, praticamente cuspindo na cara de todo mundo como o país é socialmente atrasado e ainda sofre com as desigualdades de gênero. Acho que o EXID foi muito corajoso em escancarar esse problema logo depois da fancam da Hani hitar por toda a internet, como se elas estivessem dizendo “me fez famosa porque eu falei de putaria, então toma essa crítica social fuderosa demais lacrou na sua cara”. Honestamente, Ah Yeah é genial, com todas as censuras e borrões ao longo do MV, apenas pra serem reveladas no final, subvertendo todos os valores do espectador. 

03. Ladies Code – Galaxy

Trazer esse comeback deve ter sido difícil, mas o Ladies Code conseguiu transformar o luto em arte quando o MV de Galaxy foi lançado. A ideia aqui é trabalhar com composições de três, principalmente triângulos, simbolizando que, apesar da perda, é preciso que o grupo se una e busque força umas nas outras, pois agora elas são um trio. Isso implicou em toda uma mudança na identidade visual do Ladies Code, inclusive na logo, então todo o MV faz questão de nos lembrar “agora somos três”; no entanto, as cenas de dança também dizem “mas já fomos cinco” quando elas são compostas pelo grupo e mais duas dançarinas. Todas essas dinâmicas numéricas de três e cinco são interligadas por tesouras, objeto com a função de cortar alguma coisa, seja papel ou laços (no sentido de relações), e elas também aparecem de vez em quando pelo vídeo. Ou seja, Galaxy mostra que seguir em frente e relembrar são etapas que fazem parte do luto e isso é absolutamente normal. 

02. Keyakizaka46 – Kuroi Hitsuji

Não é a toa que eu falo do Keyakizaka46 o tempo todo nesse blog, pois esse é o grupo criado pelo Akimoto que mais se distancia da premissa de idol e também é o único que foi pensado pra ter uma única integrante como protagonista de uma narrativa construída exatamente pra ela (tanto que o grupo morreu depois da graduação da Techi). Seja criticando alguma coisa ou rompendo os padrões, o Keyakizaka46 tem uma videografia super refinada que vale ser vista, e Kuroi Hitsuji é a máxima sendo levada a outro nível. Aqui, a Techi atua como uma espécie de “agente do caos” só que do bem, escavando os segredos mais obscuros da sociedade japonesa, sempre tão certinha, íntegra e polida, e descobrindo que cada pessoa é uma “ovelha negra” (a expressão tem cunho racista e eu não gosto dela, mas é literalmente o significado em japonês). O MV também segue a técnica de uma única tomada do ponto de vista da Techi, sempre rejeitada por representar o amor que falta no opressor e, consequentemente, no oprimido. É impossível não esboçar nenhuma emoção com a sensibilidade artística disso aqui. 

01. Perfume – Magic of Love

Acharam que eu não ia falar de Perfume nessa lista? Acharam errado! Isso porque Perfume não é só o meu grupo favorito, como tem a melhor videografia da história da música e eu digo essa afirmação sem medo nenhum. Elas sempre tiveram a premissa de representar seus MVs com o máximo de tecnologia que a época poderia oferecer e sempre fizeram isso muito bem, mas Magic of Love está em outro patamar. Isso aqui preenche os olhos de qualquer um, desde meros espectadores a estudantes de design, e, não importa quanto tempo passe, continua sendo um desafio entender como esse MV foi feito. Existem muitos recortes de cena, muita edição e muita computação gráfica, mas acho que o principal destaque de Magic of Love é a coreografia de trás pra frente feita pra ser executada na ordem normal. É um bagulho que me buga até hoje, e nas primeiras vezes que eu vi esse MV eu chorei (ainda me emociono um pouquinho quando assisto). Toda a produção de Magic of Love resultou em um produto de altíssima qualidade, talvez o ápice da experimentação visual dentro do jpop, e que provavelmente serve de referência pra qualquer estudante e admirador das artes no geral. 

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Autor: Rafa

26 anos, de São Paulo e ativa nessa vida de pop asiático há mais tempo do que eu gostaria.

5 pensamentos

  1. Não creio que You Make Me Want To Be A Man tem esse significado!!! Lembro q assisti quando tava descobrindo a discografia da Utada e não tinha entenido bulhufas kkkk

    Muito legal esta questão do design, porque dá pra ver que é uma paixão e fica bem aparente como dá pra extrair muita coisa de estudo acadêmico e profissional em algo de um lugar que a gente inicialmente não espera (k-pop/j-pop) xD

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  2. Rafa, quero deixar aqui um obrigadaço por exaltar as garotas do k-pop no seu blog. Nós vivemos em um mundo machista, e amo ver garotas exaltando e apoiando outras garotas, principalmente num lugar tão ferino com elas quanto o k-pop é. Se um macho faz escândalo, depois de um tempo é perdoado. Se é uma mulher, só faltam tirar a alma dela. Então, parabéns pelo trabalho!

    Sobre a sua lista, amei ver Utadão e Perfumão nela!

    Um detalhe que é interessante ser observado no clipe de Utada é que o “Adão cyberpunk” dele nasce depois da “Eva”, tanto que é ela que perde a costela pra que ele nasça. Isso mostra o quanto a Utada já queria falar de feminismo nessa época.

    Magic of Love é a minha música/MV favoritos das Perfumadas, e como eu disse no blog do Lunei, amo a vibe geométrica à la Piet Mondrian dele.

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    1. ai esse comentário fez minha noite, até mostrei pro meu namorado hahahahah obrigada vc! espero que vc possa vir mais vezes aqui no blog. acho que a minha vontade de escrever se juntou com muitas coisas que e vi e ouvi durante anos nesse meio e o ayo gg nasceu. saber que as pessoas reconhecem e gostam me deixa muito feliz

      eu nunca tinha percebido esse detalhe no clipe da utada, que genial! essa música é realmente muito a frente do tempo né? obrigada pela observação

      Curtido por 1 pessoa

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