A Kakao M despirocou de vez e retirou os artistas com músicas distribuídas por ela do catálogo do Spotify… No mundo inteiro

Nem tem como não falar desse assunto porque está, literalmente, na boca de todo mundo nas redes sociais. Lembram quando o Spotify fez seu debut na Coreia do Sul e como a gente brincou a respeito de não terem artistas da Kakao M no aplicativo porque não chegaram a um acordo de direitos de reprodução? Então, o que estava limitado apenas à Coreia do Sul agora reflete no mundo todo.

Hoje, a comunidade internacional acordou com uma notícia, no mínimo, revoltante. A Kakao M resolveu retirar todos os artistas que ela representa por conta dessa falta de acordo entre eles e o Spotify, estragando a playlist de toda a blogosfera fundo de quintal. Antes de todo esse atrito comercial entre ambas as empresas explodir, acho que ninguém havia se dado conta do impacto negativo que um grupo empresarial pode oferecer. 

Eu vim em caráter de plantão mesmo pra fazer esse post, eu parei tudo que eu estava fazendo nesse momento pra escrever o que eu sinto com essa notícia porque nada melhor que a gente se expressar no calor do momento. Pra quem não sabe, a Kakao M, que já foi chamada de LOEN Entertainment, é um grande conglomerado de empresas relacionadas à indústria fonográfica coreana. Eles cuidam de serviços de streaming, grupos de conteúdo midiático e empresas subsidiárias de gerenciamento de artistas. 

Pra gente entender mais como a Kakao M está entrelaçada em 80% do mercado da Coreia do Sul, vamos traçar um caminho comum que um consumidor internacional de kpop faria. Hyuna fez comeback recentemente, certo? I’m Not Cool marca o primeiro grande lançamento da Hyuna pela P Nation, disponível no Spotify no dia 28 de janeiro e com conteúdos exclusivos divulgados pela 1TheK no Youtube. Atualmente, o single dessa era de mesmo nome conta com mais de 29 mil likes no MelOn. Todas essas empresas que eu falei estão sob custódia da Kakao M.

É como a Coca-Cola Company, que por trás de propagandas calorosas sobre família, amizade e companheirismo, lidera um império formado por marcas como Mate Leão, Del Valle, Ades, Crystal e, recentemente, a Heineken. É como se tudo que a gente consumisse no nosso dia-a-dia fossem pequenos ventríloquos comandados por um grande mestre, mas ninguém realmente tem conhecimento disso. 

Essas oligarquias empresariais existem desde que o capitalismo é capitalismo e têm a função de diminuir cada vez mais a concorrência no mercado, dentro do seu próprio nicho. Assim como a Coca-Cola Company atua como um megazord de pequenas empresas e marcas com o intuito de lucrar mais que a PepsiCo (outro grande conglomerado) por exemplo, a Kakao M absorveu todos esses nomes que fazem a chamada “linha de frente” com o mesmo propósito. Até surgir o Spotify na Coreia do Sul.

Longe de defender o Spotify também; acho que fazer uma rinha entre empresas milionárias não é o objetivo desse post. Mas a plataforma de streaming não carrega o título de “mais popular” à toa. Eu mesma conheço o Spotify desde 2014 e sou assinante desde essa época, mas num geral, a plataforma foi a grande responsável por, principalmente, o consumo fácil de músicas. Com ou sem propaganda, você e sua família têm acesso a um acervo quase infinito de artistas conhecidos e novos, seja no computador ou no celular. 

Aproveitando pra explicar pra quem não sabe como funciona, o Spotify adquire músicas de um artista através do pagamento de royalties, dependendo de quantas pessoas escutam. É diferente do lucro obtido por vendas de álbuns, o que até faz sentido, já que o Spotify oferece a música e escuta quem tem interesse. Isso implica que músicas específicas, com mais audiência, são melhores pagas, e esse dinheiro é repassado aos artistas de acordo com a política contratual de cada um.

Dito tudo isso, o surgimento do Spotify na Coreia do Sul tinha como principal objetivo integrar músicas internacionais e ouvintes domésticos, no intuito de ampliar a divulgação e conhecimento de artistas fora do circuito asiático. Óbvio que a empresa também tomou o bastão do kpop e estava disposta a também divulgar artistas da casa para diferentes ouvintes, como grupos menos conhecidos ou gêneros de música menos consumidos, como o k-indie, por exemplo. 

Só que o Spotify não contava com a oposição da maior plataforma de streaming do país: o MelOn, seu concorrente direto. Apesar de algumas similaridades, o MelOn opera de uma forma diferente, fazendo com que todos os assuntos relacionados à música envolvam a marca. Os usuários registrados podem baixar músicas por ele, podem comprar um ticket que ajuda o artista a subir no ranking da plataforma ao mesmo tempo que faz a propaganda dentro dos music shows, tem um prêmio anual baseado em vendas digitais e votos na plataforma, enfim. O MelOn, querendo ou não, é intrínseco na cultura do kpop. 

Então, o modo de se consumir música propagado pelo Spotify ameaçou diretamente o modelo de negócios do MelOn. Planos de assinatura, disponibilidade de catálogo e repasse de lucros poderiam acabar com o reinado do MelOn na Coreia do Sul. Os charts não fariam mais tanto sentido, as divulgações nos programas de TV diminuiríam com cada vez menos pessoas adquirindo o MelOn Ticket, até o MelOn Music Awards poderia ser ameaçado. Esse foi o sinal de alerta para que a Kakao M barrasse um acordo de distribuição com o Spotify no país.

Com isso, milhares de artistas do que chamamos de segundo e terceiro escalão do kpop foram prejudicados. Como principal distribuidora de música da Coreia do Sul, a Kakao M retirou todos os artistas sob seu selo do alcance de milhares de coreanos que poderiam ser potencialmente usuários do Spotify, assim como o restante do mundo que consome o gênero por ele. E isso afeta duas partes: artistas e fãs internacionais. Só. 

Grandes grupos, como o Blackpink e o Red Velvet, não sofreram com isso pois têm as músicas distribuídas pelas suas respectivas empresas, mas acaba expondo uma grande ferida do kpop. Esses grupos menores têm maior apelo com o público de fora e têm suas carreiras impulsionadas basicamente pelos números do Spotify e do Youtube, o que proporciona a vinda de muitos deles para países pouco procurados por uma SM ou YG da vida. 

No MelOn, esses grupos não tem a menor chance de visibilidade por conta do sistema diferenciado (e injusto) da plataforma, a não ser que os algoritmos do Youtube trabalhem a seu favor e deem aquela mijada pra você se tornar uma estrela da noite pro dia, como vimos acontecendo recentemente com o Brave Girls. Fora isso, grupos menores são quase que marginalizados dentro do seu próprio país, sendo engolidos pelo próprio fracasso em consequência do boom de debuts dos últimos anos (boom esse que tem como causa a própria internacionalização do kpop).

Ou seja, o fato de milhares de artistas da Kakao M sumirem do Spotify de uma vez é mais do que milhares de artistas da Kakao M sumindo do Spotify. É uma história de capitalismo, oligarquias e o mito do livre mercado, onde a indústria continua catapultando jovens a sua própria sorte de fazer sucesso em um curto espaço de tempo. Quem não conseguir, é engolido, esquecido e apagado, ao passo que grandes empresas continuam lucrando.

A equipe do AYO GG (eu, no caso) continua aguardando por mais notícias sobre o caso.

Autor: Rafa

26 anos, de São Paulo e ativa nessa vida de pop asiático há mais tempo do que eu gostaria.

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