As fotos vazadas da Nancy, ou como é importante a comunidade combater a misoginia dentro do kpop

Se você esteve ativo nas redes sociais durante esses dias, especialmente no twitter, já deve saber sobre o que eu estou falando. Está sendo um assunto bem comentado, e com toda a razão, para a gente entender a fragilidade dos idols, principalmente quando falamos de mulheres.

Não foi nem um dia direito depois que eu refleti sobre as declarações recentes de duas idols sobre imagem pública que essa notícia explodiu, o que me deixa bem frustrada com tudo num geral. A Nancy teve fotos íntimas vazadas por um funcionário da agência do MOMOLAND, a MLD Enternainment. O sujeito divulgou essas imagens em um servidor do Discord com mais de 500 membros.

Embora a empresa tenha desmentido o conteúdo das imagens dizendo que havia manipulação nelas, ainda assim o clique nojento aconteceu durante o Asia Artist Awards de 2019, enquanto a Nancy se trocava em um camarim, ou seja: um momento íntimo. Tanto a MLD quanto o comitê do AAA se manifestaram lançando seus respectivos comunicados.

De acordo com a MLD, eles estão dispostos a tomarem medidas legais contra quem tirou a foto e contra todo mundo que espalhou, dizendo o seguinte:

(…) Nancy foi vítima de uma câmera escondida e as imagens tiradas foram manipuladas. Nossa prioridade é protegê-la. Por favor, cooperem conosco. (…)

(…) Perante nossos representantes legais, serão tomadas medidas por violência sexual e quebra de sigilo trabalhista. 

Atualmente, Nancy está sofrendo de uma carga grande de estresse [pela situação]. Esperamos que não haja mais nenhuma postagem maliciosa relacionada a nossa artista.

Continuaremos a proteger nossos artistas de danos iminentes através de muita monitoria. Também daremos andamento às ações legais sem nenhuma clemência. (…)

Já a AAA, o local onde as imagens foram feitas, também mencionou que tomará suas medidas para punir os autores do crime.

(…) Nosso comitê gostaria de se desculpar com a Nancy, vítima de toda essa situação. Vamos cooperar ativamente com as autoridades policiais do Vietnã e da Coreia do Sul para tomar ações legais contra a pessoa que tirou as fotos e quem as espalhou. (…)

(…) Sentimos muito por causar uma situação tão desagradável aos fãs que amam a Nancy, e por favor continuem mandando seu apoio. 

Com essas declarações, que surgiram com uma certa demora ao meu ver, foram impulsionadas, principalmente, pela comunidade internacional. A gente tem muitos contras a respeito dessa globalização do kpop, isso é inegável, mas pra mim é tão importante todo mundo se unir por medidas legais a um crime, sabe?

Em questões sociais, ideais e políticas, a Coreia do Sul e o oriente todo é muito… retrógrado. Existe um marasmo comum a todos os cidadãos homens a respeito desses assuntos; existem fóruns de ódio a mulheres, existem comentários nos principais portais de notícia desses países, existem pessoas que usam diversas desculpas para explorar a figura feminina de todas as idades, em várias mídias. E eu sinto que, se o kpop não se tornasse um “produto” internacional, casos como o da Nancy aconteceriam com muito mais frequência sem tomar o holofote mundial e sem nenhum pronunciamento.

Em 2018, num ano onde o Blackpink lançaria seu single de maior alcance, se consolidando como uma potência do kpop, o rapper San E lançou um desaforo em forma de música chamada “Feminist”, uma espécie de diss-track ao movimento feminista que acontecia na Coreia do Sul na época, quando duas mulheres e três homens partiram para agressão após uma discussão sobre o assunto, o que se transformou em uma petição contra o ódio às mulheres.

Bom, o San E se aproveitou do buzz e lançou essa música de surpresa, se assumindo com o alter ego Feminist e questionando “a tal desigualdade social” que as coreanas alegam existir, sem deixar de debochar. O rapper já era famoso por ser misógino nas suas letras. O caso causou um barulho e foi perdendo força aos poucos, contendo-se apenas em fóruns coreanos especializados em depreciar mulheres, como o Ilbe.

Em um país onde uma música dessas ganha força para existir, um hino improvisado aos celibatários, é necessário enxergar o kpop além do espectro de entretenimento. Mulheres existem e resistem na indústria, são meninas que saem de casa muito novas em busca de um sonho, às vezes atravessando o planeta. A Nancy, uma dessas milhares de meninas, provavelmente vai ser afastada das atividades enquanto se recupera do trauma que é ser exposta em um país tão conservador. Se essa é a melhor decisão, não sei, mas através desse caso, a comunidade não vai deixar que mais nenhuma seja alvo de agressão.

Caso você veja algo sobre esse caso sendo exposto, mande um e-mail para fan@mldcenter.com. O tweet abaixo contém um texto em hangul para denúncias.

Autor: Rafa

26 anos, de São Paulo e ativa nessa vida de pop asiático há mais tempo do que eu gostaria.

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