Desbravando a música pop (e afins) japonesa, parte 1

Como parte dessa retomada do blog (que vai ser bem lenta, já adianto), provavelmente vou soltar alguns assuntos que ninguém nesse planeta além de mim está discutindo, e que vocês não esperariam que eu falasse sobre (e que eu sei que nem vai chamar tanta atenção). Não sei se nesse momento eu quero saber quem foi a blackpink que desovou o álbum mais horroroso ou o que o novo girlgroup da SM tem a dizer, até porque eu não conheço praticamente nada do que essas pessoas lançaram de março/24 pra cá e, me conhecendo bem, isso demanda uma pesquisa extensa da minha parte. Depois vocês me falam aí nos comentários o que foi que eu perdi de lá pra cá e a gente discute. 

Em vez disso, eu quero comentar sobre o que de fato eu andei ouvindo nas últimas semanas dentro de um projeto pessoal que eu tenho alimentado durante a minha semana de desemprego, lá no começo de fevereiro. Quero falar de um período específico da música, inserido dentro do melhor período do mundo em geral, onde o Japão era *aquele Japão* que toda criança e adolescente aficionado por Japão tinha em relação ao Japão: de que o Japão era o país mais legal do mundo. Os astros se alinharam de tal forma que todo mundo, todo mundo mesmo, teve um despertar coletivo em relação às artes em geral, mas que em terras nipônicas, com todo aquele ar de estranheza e curiosidade, isso foi intensificado em níveis estratosféricos.

Sim, vamos discutir alguns álbuns lançados por artistas japoneses entre 1995 e 2010. 

Disclaimer: como estamos nessa era mais, ahm, descompromissada (e um pouco experimental) do blog, o título pode ou não significar que terão mais partes, mas a ideia é juntar uma boa quantidade de álbuns e escrever sobre. Até porque minha escrita tá enferrujada.

01. Ayumi Hamasaki – Next Level (2009): Talvez o último grande destaque da carreira da Ayu enquanto diva pop japonesa. Visualmente é babilônico, mas a tracklist é uma bagunça, principalmente ali pro final, onde o álbum vai ficando cada vez mais maçante de ouvir. Sei que ela prometeu “elevar o nível”, e se ela tivesse de fato conseguido seria memorável, mas levando em consideração o que veio depois, Next Level cumpre a cota de alguma forma. 

02. capsule – LDK Lounge Designers Killer (2005): É um dos grandes queridinhos na discografia do capsule, mas eu não sei se me agrada. Tenho a impressão de que o Nakata produziu coisas bem melhores nessa que já é a melhor época da dupla; não precisa ir muito distante pra achar. 

03. The Brilliant Green – Los Angeles (2001): Não sou tão fã da banda num geral, acho a sonoridade deles bem qualquer coisa, mas entre tudo que eu já ouvi, Los Angeles é o mais interessante. É melancólico e apaixonado, como de se esperar da nossa Avril Lavigne japonesa. 

04. Serani Poji – One-Room Survival (2002): É a trilha sonora perfeita de qualquer anime slice of life que você tenha assistido na sua vida. Imagens da protagonista andando nas vielas de qualquer bairro japonês, indo pro colégio, encontrando as amigas na estação de trem, vivendo um dia no parque de diversões, sem história milimetricamente planejada, sem reviravoltas; a vida é uma mordida em um bolo Castella enquanto o mundo acontece pela janela da cafeteria. 

05. Cymbals – That’s Entertainment (2000): Uma dessas milhares de bandas de Shibuya-kei que você encontra por aí, inspiradas na estética dos anos 60, sunshine pop, flower power, twee pop e derivados, com a diferença de que essa é boa de verdade. Pode esquecer o Flipper’s Guitar. 

06. Noriko Tujiko – From Tokyo to Naiagara (2003): A Bjork se ela fosse japonesa e talvez no seu momento menos inspirado. Digo isso porque tenho a impressão de que esse não é o melhor álbum dessa querida. Ideias existem e elas flutuam por aqui, mas nem sempre são capturadas. Sei lá, preciso ouvir outros. 

07. Coaltar of the Deepers – Come Over to the Deepend (2000): Denso, apocalíptico e subestimado. Em momentos, você se sente claustrofóbico com tanta coisa acontecendo; em outros, você quer se enrolar entre as pernas e refletir sobre a insignificância da sua existência. Quase uma mixtape duvidosa que você encontraria na Santa Ifigênia por 10 reais e uma etiqueta de artista desconhecido. O Narasaki é capaz de escrever algo como When You Sleep, mas Kevin Shields jamais escreveria Thunderbolt. 

08. Boris – Heavy Rocks (2002): Eles juntam tudo de ruim que existe no gênero hard rock e ensinam pra essas bandas como de fato fazer um álbum de hard rock. Heavy Rocks bate pesado, como o punho mais monstruoso esmagando cada micro-osso do seu rosto. Os riffs mais nojentos de guitarra que você vai ouvir estão aqui e eles foram compostos por uma menina de 1,50m. 

09. Akina Nakamori – Shaker (1997): Ouvindo de novo depois de quatro anos, eu fui injusta; esse é um dos álbuns mais coesos da Akina. De cabo a rabo, é uma viagem maluca de ácido pelas ruas agitadas de Roppongi, tropeçando nos próprios pés, deprimida, cansada da fugacidade da vida noturna, e sendo seduzida por ela mais uma vez. Foda!

10. BUCK-TICK – Sexy Stream Liner (1997): Quando o BUCK-TICK resolveu pirar nessa história de clubber, eles entregaram os melhores trabalhos. E como o visual kei é mais um movimento do que qualquer outra coisa, estar presente na cena cyberpunk do final dos anos 90 deu uma sobrevida gigantesca não só pra banda, como pra estética em si. Só de ouvir as primeiras três notas de Sasayaki a gente já entende que vai ser melhor do que a sequência apática de rock gótico que eles fizeram no começo da década. 

11. Plus-Tech Squeeze Box – Cartooom! (2004): Você já teve a experiência de ser criança nos anos 2000 e estar de cama por conta de uma virose e cair no sono às duas da tarde com a televisão ligada de fundo no Cartoon Network e sonhar as coisas mais malucas por conta da febre alta e acordar depois de um tempão toda suada com a sua mãe colocando a mão na sua testa? 

12. Perfume – Triangle (2009): Nada que eu diga já não foi dito antes sobre esse álbum. É o Nakata no seu primor enquanto produtor. A visão artística era algo fora de série, todas as músicas seguem uma narrativa específica, como se o mundo estivesse acabando e, nos quintos dos infernos, três vozes agudas além da conta te atormentassem pro resto da vida. Produce music like rent was due. 

13. Hikaru Utada – Ultra Blue (2006): A forma como esse álbum foi tratado na estreia deve ser top 3 piores injustiças que alguém já cometeu com outro alguém. Ultra Blue é muito à frente do seu tempo. Futurista sem ser pedante ou cabeçudo, extremamente pop, cintilante e sentimental. Uma das únicas vezes que, musicalmente, o “Cool Japan” não pareceu tão “cool” assim por não ter abraçado esse álbum da maneira que ele mereceu, mas não importa, porque, independente da época em que você ouça, sempre vai parecer algo que acabou de ser lançado. 

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