Hikari Mitsushima e Shadow Dance: uma história sobre trilogias, liberdade e deep house japonês

Se, assim como eu, você não sabia que a atriz (e casualmente cantora?) Hikari Mitsushima tinha lançado mais uma canetada com o Mondo Grosso no começo do mês passado, e também não se animou com os comebacks que tivemos nesses dois últimos dias, seja bem-vindo. Como não tinha nada muito, ahm, salubre pra ser comentado aqui no blog, resolvi organizar a agenda de lançamentos até me deparar com um vídeo no Youtube que dizia que o Osawa tinha assinado mais uma produção extremamente homossexual e que eu deixei escapar.

Primeiro de tudo: quem é Hikari Mitsushima? Conhecida como uma das atrizes mais carismáticas, versáteis e famosas lá no Japão, atuando em filmes como Love Exposure e Villain, e em doramas como Saving My Stupid Youth, Quartet e o maravilhoso First Love (baseado nas músicas de mesmo nome da Utada), Hikari também foi integrante do grupo feminino de eurobeat Folder5. Ela é bem conhecida no país, com uma atuação acima da média, é um dos rostos da campanha Kaguya, da Gucci, e, como se não bastasse, é a musa do Shinichi Osawa, produtor de hits mesopotâmicos do pop japonês (e asiático num geral). 

Lá em 2017, depois de um tempinho sem lançar nada original como Mondo Grosso, sai o clipe de Labyrinth, com a Hikari servindo vocais e uma performance melancólica, daquelas de partir o coração pra ser reconstruído com chiclete ou algo assim, em meio a uma Hong Kong perdida no tempo, entristecida, azulada, quase um filtro pronto das produções do Wong Kar-wai. Esse pop mais introspectivo, que explode aos poucos, num cenário lotado de prédios sempre me deu essa sensação de quebrar o próprio molde dentro dessa sociedade pós-moderna, daquilo de finalmente achar seu lugar no mundo e, de alguma forma, se sentir livre. É uma música emblemática com um vídeo lindo de acompanhamento. 

A parceria se repetiria cinco anos depois em In This World, ainda abrangendo a ideia de liberdade, mas de uma maneira muito mais fantasiosa e até sublime. Com o lendário Ryuichi Sakamoto, do Yellow Magic Orchestra, no piano, In This World cata pra si os fragmentos de melancolia deixados por Labyrinth, mas transforma em algo mais grandioso (e até meio egocêntrico) quando todas as paredes se erguem com música erudita, só pra serem derrubadas logo em seguida quando o sintetizador entra. É como se a mensagem passada aqui fosse fazer da vida o seu palco, com a Hikari entregando tudo de si na dança contemporânea. In This World é presunçosa demais, juntando todas essas referências muito diferentes, mas é algo que ela pode ser porque a mistura dá certo. 

Shadow Dance, que é assinada somente como “Prod.MONDO GROSSO” (o que já me leva a acreditar que a queridona vai engatar uma carreira musical de vez e investir nessas parcerias com produtores babadeiros), fecha uma possível trilogia sobre toda essa questão de se sentir livre dentro da própria pele. O clipe se conecta com a história apresentada no vídeo publicitário da Gucci e a nova coleção baseada na lenda da Princesa Kaguya, como se a Hikari não só fosse um ser vindo diretamente da Lua, mas muitas vezes exalando essa energia magnética que se atribui ao nosso satélite, como se ela fosse a própria Lua. E o que é a Lua, metaforicamente falando, se não uma grande expressão feminina? 

Os breaks de dança são incríveis, o verdadeiro significado de sentir cada movimento do seu corpo como algo além. Com os dançarinos representando “o povo da Lua” que veio buscar a Princesa Kaguya, é como se voltar a ser um ser divino depois de conhecer a mortalidade fosse a experiência mais fantástica que existe porque, porra, como é bom viver! Aquele êxtase que atravessa nosso corpo quando a gente percebe, de fato, que estar vivo é um presente e que é mais do que necessário honrar a dádiva da vida de vez em quando é o exato sentimento que Shadow Dance passa. Sendo mesmo uma trilogia ou não, a dupla aqui não podia ter encerrado melhor essa sequência de pancadões existenciais. 

Vocês sabiam que agora eu vendo minhas artes? Lá na Colab55 tem algumas opções de produtos com estampas que eu fiz e você pode comprar pra ajudar essa pobre coitada que escreve o blog.

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